Feliciano Félix: diálogos sobre políticas públicas e arte
Feliciano Félix tem uma importante atuação no campo da elaboração e debate das políticas públicas em teatro. Foi presidente da Feteape, ajudando a implementar significativas ações para os grupos filiados. E atualmente é presidente da Artepe, nova entidade que vem com muito empenho demonstrando suas possibilidades de gestão do fazer teatral. Em nossa entrevista, Feliciano fala sobre seus trabalhos na vertente das políticas públicas e também sobre seu trabalho de ator na cena pernambucana. (Entrevista concedida a Wellington Júnior)
TeatroPE: O Ministério da Cultura vem desenvolvendo diversas ações culturais no estado. Como você avalia a política cultural do Governo Federal no campo teatral?
Feliciano Félix: O teatro é uma arte efêmera, que morre no ato do nascimento. O teatro por ser um espetáculo vivo guarda uma relação de dependência entre o que ocorre no palco e o público, diferentemente de outras artes, sendo aquele o terceiro elemento que fecha a triangulação da tríade teatral. Não se pode produzir um espetáculo em escala para consumi-lo posteriormente. Isso significa dizer que o desafio está em prover com políticas públicas específicas toda a cadeia produtiva teatral focando em três condicionantes: formação, fomento e rede de equipamentos adequados para sua distribuição. Nesse sentido o Ministério da Cultura, através do Plano Nacional de Cultura, reúne um diagnóstico realista das necessidades e uma plataforma para o cometimento de ações de longo prazo (previsto para ser totalmente concluído em 2018). Pelas inúmeras conferências (muitas presenciais e tantas outras virtuais), seminários, Câmaras Setoriais, Encontros de Capacitação entre outros instrumentos, fica clara a percepção de que o Ministério sabe o que deve ser feito e como deve ser feito. Porém os efeitos dessas ações não são visíveis para nós na medida das nossas necessidades. Tudo começa pelos parcos recursos: o Brasil aplica somente 0,49% do seu orçamento na cultura, quando a PEC 150/03 determina que esse percentual seja da ordem de 2%. Esse foi um dos motivos prováveis da saída do ministro Gilberto Gil (não ter conseguido ampliar o orçamento para – pelos menos – 1%). Com tão poucos recursos para um país continental como o Brasil, onde apenas 21,2% dos municípios possuem teatros ou salas de espetáculos (sendo que 86% ficam em São Paulo, o que dá a dimensão do desequilíbrio), com uma demanda por políticas públicas reprimida por décadas (a era Lula/Gil retomou um ciclo somente observado na década de 70, gravemente ferido de morte nos anos do governo Collor de Mello), tudo que for feito parecerá sempre pouco aos nossos olhos. Merece destaque a desconcentração da Lei Rouanet, a Caravana Funarte de Circulação Nacional, o Prêmio Mirian Muniz de Teatro e a implementação dos Pontos de Cultura, que têm dado algum fôlego à produção teatral local.
TeatroPE: Como você avalia as políticas culturais na área de teatro do Governo do Estado?
FF: Em sucessivas reuniões do Setorial de Teatro de Pernambuco, produtores, técnicos, artistas e entidades de classe elaboraram o documento Reflexão e propostas para a incrementação da oferta e demanda teatral: produção, crescimento e difusão. O citado documento que foi entregue à Fundarpe no início deste ano contempla 6 eixos temáticos (1. Equipamentos, 2. Formação e Pesquisa, 3. Circulação, 4. Fomento/Calendário Teatral, 5. Gestão e 6. Incentivo). As ações previstas (que representam a demanda dos teatreiros do estado) foram divididas espacialmente como sendo de curto, médio e longo prazo. Estamos aguardando a implementação de suas diretrizes. Por outro lado, apesar de registrarmos com satisfação um aumento substancial nos recursos do Funcultura, colocamos mais uma vez o dedo na ferida. Os investimentos na área da cultura são ínfimos. Pernambuco investe apenas 1,7% do seu orçamento na cultura, ficando atrás de estados historicamente menos densos em sua oferta cultural (em comparação com Pernambuco sem nenhum bairrismo). Estados que saem na dianteira nesse quesito: Bahia – 10,6%, Maranhão – 4,6%, Ceará – 2,2% e Rio Grande do Norte – 2,0%, conforme atesta o Jornal do Commercio na sua edição de 20 de dezembro de 2007.
TeatroPE: Na Prefeitura do Recife, temos oito anos de uma política continuada. Como você avalia a política de cultura municipal no campo do teatro?
FF: Na área da cultura em seu conceito mais amplo, nas suas três dimensões (simbólica, econômica e cidadã), o Recife tem sido uma referência nacional. Ações como Programa Multicultural, Carnaval descentralizado/sustentável, Conselho de Cultura ampliado/paritário/empoderado, Conferência Municipal de Cultura bienalmente, Rede de Refinarias (em implantação), Orçamento Participativo da Cultura, inclusão e acesso social pelas ações da GAC - Gerência de Animação Cultural, Projeto Educação Para o Teatro (no Barreto Júnior) e Teatro aos Domingos (no Sítio Trindade e Nascedouro de Peixinhos), dentre outras ações sinalizam que Recife não tem volta. Porém na área teatral especificamente temos gargalos não resolvidos por esta gestão, o que deixa a produção estagnada. Há anos damos como indicativo a instalação de uma Escola Municipal de Artes Cênicas, precisamos de mais teatros (e com infra-estrutura adequada ao bom funcionamento) para que espetáculos de viço possam vingar.
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É preciso um plano de divulgação mantido pela Secretaria de Cultura (a Agenda Cultural sozinha não supre esta lacuna), Políticas de estímulo à formação de platéias, alterações no formato do SIC Municipal, aumento dos recursos do Prêmio de Fomento ao Teatro. A próxima gestão tem o desafio de consolidar e ampliar as conquistas alcançadas e resolver em definitivo os gargalos que nos afligem, para voltarmos a ser o pólo cultural que fomos no passado. |
omo ator no espetáculo O rei Rodelas |
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