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TeatroPE: Como você começou no teatro?
FF: Comecei aos 16 anos de idade e quem me iniciou foi Isa Cavalcanti, minha professora de educação artística, no Colégio Rosa de Magalhães Melo, no alto Santa Terezinha. Depois entrei para o Grupo de Jovens da Igreja Nossa Senhora da Conceição (Praça da Convenção em Beberibe) e minha primeira peça foi A louca do jardim, com direção de Iraquitan Xavier (que hoje vive em Caruaru) encenada na casa paroquial. Fiz, no mesmo local, A paixão de Cristo e O pescador da Galiléia ambas com direção de Lupércio Lucas. Max Almeida fazia parte do mesmo grupo e juntos participamos de um curso de teatro no Teatro de Santa Isabel. Os professores eram Walter Barros, Astrogildo Santos e Ulisses Dornellas (o nosso Palhaço Chocolate). Ao término do curso Ulisses me convidou para fazer parte do grupo dele, o Armorial. Participei das peças O Circo Rataplan, A bruxinha Dorotéia e O patinho preto, todas com direção dele. Tenho vários prêmios de melhor ator, onde destaco os recebidos pela minha atuação em Chapeuzinho vermelho, de Maria Clara Machado e direção de Didha Pereira; Gabriel e Izabel e As grávidas, ambos escritos por Adriano Marcena e dirigidos por Izaltino Caetano. Além destes citados já fui dirigido por Geninha da Rosa Borges, Max Almeida, Carlos Bartolomeu, Valdi Coutinho, Carlos Carvalho, Carlos Salles, Isa Cavalcanti, Walter Barros, Breno Fitipaldi, José Pimentel, Adriano Marcena e Luiz Felipe Botelho.
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À esquerda, no espetáculo Batalha dos Guararapes |
TeatroPE: Você trabalhou muito com o encenador Izaltino Caetano, um nome muito importante para a cena pernambucana. Como você avalia essa parceria com Izaltino? Você como ator e ele como encenador, como foram os processos de criação?
FF: Trabalhar com Izaltino Caetano é muito prazeroso porque ele deixa o ator à vontade. Ele dá a linha de interpretação e nos estimula na “busca da verdade” do personagem. Seu processo de criação, apesar de intuitivo, se baseia também em experimentos anteriores e vivências práticas de outrem. Normalmente ele leva filmes atinentes ao tema para o elenco assistir e também convida pessoas de notório conhecimento para dissecar a obra em pauta. Quando montamos, por exemplo, A proibição dos espelhos na teia da aranha negra do Século XXIII, de autoria de Norberto Cardoso, quem cumpriu esse papel de dramaturg da obra foi o professor e pesquisador de teatro, Wellington Júnior. Izaltino, por sua natureza inquieta nunca está satisfeito com o resultado obtido, por isso, sempre instiga o ator a ir “buscar” mais. Parece que estou a ouvir suas palavras durante os ensaios – “melhorou 1%”. Identifico-me bastante com sua forma de conduzir a encenação, numa parceria muito saudável.
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No espetáculo A proibição dos espelhos na teia da aranha negra do Século XXIII |
TeatroPE: Outra parceria muito importante foi com Adriano Marcena. Você atuou em diversas peças dele. O que te fascina na dramaturgia de Marcena?
FF: Uma das coisas mais importantes da minha vida teatral foi dar vida aos personagens gestados por Adriano Marcena. Do total de peças por mim encenadas quatro são de Adriano: Gabriel e Izabel, As grávidas, O rei Rodelas e Das cinzas solidão, sendo que neste último o personagem Davi foi escrito especialmente para mim. O que mais me fascina na dramaturgia de Marcena é o fator surpresa que ele consegue oferecer no seu enredo.
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O resultado da trama nunca é aquilo que o ator
(e consequentemente o espectador) espera, se deparando sempre com algo totalmente inesperado. A obra dele tem características bem marcantes: o tempo da ação é atemporal. Personagens que não aparecem na cena têm uma força dramática tão forte quanto os personagens cênicos. E cartas (muitas cartas): sempre tem uma carta de um personagem em ‘off’ que altera decisivamente a carpintaria da trama. Por fim sempre tem uma ação anterior ao tempo cênico que é determinante pelo estado físico/mental de personagens importantes na condução do enredo. Resumindo: É um universo ambíguo-desconhecido fascinante que faz da obra de Adriano Marcena um marco em nossa dramaturgia. |
No espetáculo Das cinzas solidao, texto de Adriano Marcena |
TeatroPE: Você é um produtor atuante. Como você avalia o mercado cultural pernambucano?
FF: É difícil falarmos em mercado cultural pernambucano para quem faz teatro. Vários fatores determinam essa inércia. Casas de espetáculos em número inferior ao necessário. Espetáculos com qualidade medíocre. Público com outras opções de entretenimento. São tantos fatores adversos. Para termos um verdadeiro mercado teríamos que potencializar todas as condicionantes que envolvem a cadeia produtiva teatral. E, sobretudo melhorar a qualidade estética do teatro que fazemos. Sempre nos queixamos daquilo que nos falta, mas não temos a coragem de fazer mea culpa e assumirmos que também temos nossa cota de responsabilidade.
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Ao centro, como produtor em O Circo Rataplan |
TeatroPE: Como surgiu a Refletores Produções? E quais os futuros planos para sua produtora?
FF: A companhia foi fundada em 1982 a partir da união de um grupo de amigos muito próximos: Lúcia Machado, Max Almeida, João Cavalcanti, Ginaldo Gomes, Edvaldo Gouveia e eu. Fazíamos o verdadeiro teatro de grupo. Líamos muitos textos, fazíamos laboratórios, pesquisas, estávamos sempre juntos e nos tornamos quase uma família. Todo mundo sabia dos problemas e das alegrias dos outros, pois tudo era compartilhado. Passamos por várias fases. Nosso primeiro espetáculo foi O genro que era nora, que na época escandalizou. Para desespero da minha mãe eu fazia papel de mulher. Depois se seguiram A visita de Sua Excelência (em Co-produção com a Casa de Ópera), Sexta-feira 13, Fim de jogo, A formiga fofoqueira (nossa primeira peça infantil), Torturas de um coração ou em boca fechada não entra mosquito, Dançando Pernambuco (espetáculo de dança em parceria com a Cooperarlecchino), A mente capta e A trilogia da miséria humana, de Adriano Marcena, que incluía três espetáculos: As grávidas, Os leprosos e Os cristãos.
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Na época foi uma produção ousada com temporada simultânea dos três espetáculos no Teatro José Carlos Cavalcanti Borges, no Derby. Até hoje esta produção é comentada entre as pessoas da área. Neste período por problemas internos paramos de produzir por um bom tempo. Depois montamos Ave Guriatã, Lua de sangue, Lembrem-se de Lilith!, Das cinzas solidão, O Circo de Seu Bolacha e O Circo Rataplan. Hoje somos uma companhia totalmente consolidada e bastante respeitada no cenário pernambucano. |
Caracterizado de Sr. Bolacha no camarim do Teatro do Parque |
TeatroPE: Você tem um grande contato com os movimentos periféricos de teatro (grupos do interior, grupos de bairro, grupos da periferia, movimento de rua). Como você vê o trabalho desse movimento na cena teatral contemporânea pernambucana?
FF: Os grupos do interior e das periferias do Grande Recife cumprem um papel de resistência há muito tempo perdido pelos grupos tradicionais. No passado os grupos eram células formuladoras que sintetizavam o sentimento político e social do momento e ‘traduziam’ através do teatro as inquietações que as pessoas tinham medo de exteriorizar. Depois os grupos começaram a se mirar no teatro profissional e almejaram fazer carreira. Nesse processo de mutação muitos não conseguiram encontrar o caminho identitário. Hoje os grupos das periferias suprem este vácuo, mas com outras funções. As inquietações levadas à cena tratam de questões sociais no tocante ao cotidiano das pessoas no que diz respeito às necessidades sociais mais imediatas sem, contudo, haver o confronto de idéias e o debate de pensamentos. Isso não minimiza a importância desses grupos que cumprem a função de dialogar com a comunidade na qual estão inseridos.
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