A Pedra, o Totem e o Caos
por Júnior Aguiar (aguiarecife@hotmail.com)
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Vinte anos se passaram e o Totem continua interferindo na vida. Colocou-se além das coisas miúdas, do restrito mercado consumidor, dos escassos e dependentes incentivos públicos e do fechadíssimo mundo conservador das artes cênicas de Pernambuco.
É referência histórica em nossa terra quando falamos de performance e de experimentação de linguagens híbridas. Andando junto ao trabalho pioneiro de Paulo Brusky, Vivencial Diversiones, Vavá Paulino e outros nomes.
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Fred Nascimento e Lau Veríssimo - Fundadores do Totem (Foto de Claudia Rangel |
No Totem, as idéias devem correr riscos necessários. Sem nunca esgotar, nem limitar ou excluir. E, possivelmente, podemos até assistir a algo que não é definitivo ou utopicamente “perfeito”. Mas temos deles o processo primordial da criação - a liberdade escolhida e conquistada - essencial ao trabalho que cresce, amadurece e se consolida.
Para um melhor entendimento desta história fui ao encontro de Fred Nascimento e Lau Veríssimo, artistas e educadores, marido e mulher, nomes que estão lá nas origens como profundas raízes dos primeiros acontecimentos que imbricaram na criação do grupo. Moram perto do mar, no litoral norte, numa bela casa situada na rua chile.
Enquanto conversávamos, Lau preparava uma panelada de sururu, pirão e peixe. Muitos amigos do casal foram chegando. Gente por toda a casa. Uma festa. Assim é o Totem, uma celebração familiar onde todos estão envolvidos espontaneamente na concepção e criação simbólica do mundo.
Conversávamos no pequeno palco/teatro construído no terreno com características balinesas, orientais. Encantadora estrutura cênica de inesquecível beleza. Fred e Lau foram costurando as lembranças, desenhando a passagem do tempo das décadas e do aprendizado diário que cada trabalho significou para a trajetória em processo. Seis espetáculos, inúmeras performances, algumas exposições e publicações de artigos em revistas e congressos.
Tudo começa em Olinda, entre os anos de 83 e 84, quando Lau, Fred, Alexandre Figueirôa, George Moura, Xico Sá, Carluca, Vavá, encontravam-se no Abraxas, que era “um templo de arte e muita farra” para experimentações artísticas, como bem definiu, Fred Nascimento. “Depois montamos o Trem Fantasma que era um grupo e uma produtora de festas malucas entre os anos de 85 e 87. No ano seguinte, Lau, Mário Sergio, Hidenburgo, Carlos Magnus e os oriundos do grupo de teatro que eu coordenava no Colégio Estadual de Olinda geraram o Totem”, conclui o epílogo.
A explicação do nome partiu de uma das integrantes. Na época, todos estudavam muitos teóricos como Bob Wilson, Antonin Artaud, Oswald de Andrade, e ela, Joene, sugeriu que colocadas as cabeças desses nomes, uma em cima da outra, tal imagem formaria um totem.
Outras referências fundamentavam a procura da linguagem para o primeiro espetáculo: a dança-teatro de Pina Bausch e o pensamento de Carl Gustav Jung.
Ita, que significa pedra, foi sendo elaborado a partir dos mitos indígenas que falavam da criação do mundo que se desdobrou na criação do universo, passando pela evolução da vida até o surgimento do homem. Palco nu, enquanto objetos eram manipulados e outros criados na própria cena. Danças circulares, projeções de slides artesanais produziam cenários de luz, cor e manchas. A música possibilitando paisagens sonoras. Após longo processo de mutação, o espetáculo se reconfigurou e passou a chamar-se Ita in Process. (01, 02, 03)
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Em 1994, dois anos antes do centenário de Antonin Artaud, o Totem faz reverberar a obra e a vida deste revolucionário homem nascido na França e que profetizou uma nova “poética de reconstrução espiritual do ser humano, através de um retorno as origens sagradas da vida e do teatro”. |
Lau Veríssimo - Ita - Vídeo Performance |
Artaud incomodava por exibir o desgaste da nossa sensibilidade ocidental e afirmava: “Queremos fazer do teatro uma realidade na qual se possa acreditar, e que contenha para o coração e os sentidos esta espécie de picada concreta que comporta toda sensação verdadeira”. O Totem, com Ele, Artaud!, fala do teatro, da morte, do sonho, da vida, da solidão, da prisão da alma e da loucura.
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Lau Veríssimo e Nara salles em Ele, Artaud |
No ano 2000, apresenta Ânima, uma encenação sobre o feminino e o universo da mulher. Seguindo com Atravessando o Tempo, Como uma lua alta sobre a Impossibilidade e Caosmopolita.
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Atravessansdo o Tempo - Lau Veríssimo e Aracelly em 1º plano; músicos - 2º plano |
Atravessando o tempo ganhou um prêmio no Janeiro de Grandes Espetáculos como melhor espetáculo da Mostra Paralela. Neste dia, estava como espectador na platéia, e não esqueço o que assisti sobre os 500 anos da história recente do Brasil. Um espetáculo sobre os índios e a terra “conquistada” pelos brancos portugueses. O genocídio das raças, o poder castrador do colonizador, o mágico retorno as origens. Um espetáculo memorável de imagens, músicas e sentimentos.
Bukowski é a alma e a voz de Como uma lua alta sobre a impossibilidade. E Caosmopolita, síntese da contemporaneidade exibindo a cidade e seus habitantes, está dividido entre o dentro e o fora, tanto do ponto de vista arquitetônico e geográfico como psicológico e subjetivo. Destaque para a novíssima geração do totem, formada por Inaê Veríssimo, Tainá Veríssimo, Aracelly Silva, Gabi Cabral e Cauê Nascimento.
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Gabi Cabral, Lau Veríssimo e Taína Veríssimo em Caosmopolita (Foto de Carol Pires) |
Sobre as performances, registro aqui, para objeto de pesquisa, o nome dos seguintes trabalhos: Reentrância – o nicho; O enterro da última quimera; Hermila ou As Mulheres de Hermilo; Seis Personagens à procura de um Personagem de Pirandello; Corpoema; Duplo Faca Destino; Mantoparangolé; Hábeas Corpus: Em Nome da Beleza; Cinco Performances Em Um Ato ou Um Ato Em Cinco Performances; Lacunae e Nuit. (08 e 09)
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Sobre as performances, registro aqui, para objeto de pesquisa, o nome dos seguintes trabalhos: Reentrância – o nicho; O enterro da última quimera; Hermila ou As Mulheres de Hermilo; Seis Personagens à procura de um Personagem de Pirandello; Corpoema; Duplo Faca Destino; Mantoparangolé; Hábeas Corpus: Em Nome da Beleza; Cinco Performances Em Um Ato ou Um Ato Em Cinco Performances; Lacunae e Nuit. |
Tatiana Pedrosa em Duplo faca Destino |
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Cinco performances em um Ato - Aracelly - Spa 2003 (Foto Lívia de Melo) |
Pelo conjunto da obra, o grupo serviu de pesquisa para a tese de mestrado em teatro de Alexandre Nunes – UNICAMP, a tese de doutorado em teatro de Nara Salles – UFBA, a tese de doutorado em dança de Márcia Virgínia, as monografias de Fred Nascimento (teatro), Guilherme Oliveira (crítica cultural), Tatiana Pedrosa (teatro) e Lau Veríssimo (Teatro). (10)
De todas essas conquistas, uma bastante significativa, foi a criação e manutenção, por um ano e meio, do Espaço Totem. Localizado no histórico Pátio de São Pedro, no sobrado de número 84, em tom de preto-e-branco, várias intervenções, concentrações e expansões pelo centro do Recife. Deixa saudade a mostra teatral performática – Front - e a celebração de Raul Seixas em Anarkland com a exposição de 20 artistas, diversas performances e show da banda Netos de Raul.
Continuem colocando as cabeças, umas sobre as outras, o Totem deve ser esculpido no corpo e toda vez, quando convidados, nós, público, críticos e espectadores, dançaremos ao redor dele.
* É jornalista, colaborador do TeatroPE e integrante do Coletivo Grão Comum.
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