A força do cômico
por Wellington Júnior
A II Mostra Capiba de Teatro está apresentando uma importante amostragem das linguagens cênicas dos novos encenadores. Vemos em sua maioria nestes procedimentos de encenação a presença de uma cena rapsódica e/ou pós-dramática.
O espetáculo No humor como na guerra do importante grupo Consultoria de Ações Culturais estabelece uma conexão com uma cena épica. O espetáculo repassa fatos inusitados do cotidiano como em uma revista de ano de Arthur Azevedo.
A dramaturgia de Victor Ribeiro de Lima é estruturada a partir de quadros independentes que vão realizando críticas a uma possível moral burguesa (passando da religião até a história). A criticidade destes fatos é trazida à cena pela dramaturgia através da linguagem cômica.
Vemos em cena personagens tipificados (o político ladrão, os assaltantes brasileiros, o gay) que ajudam na caracterização das cargas morais da sociedade. Ao lado das personagens, temos as ações cômicas que são normalmente estruturadas a partir dos desencontros, das reviravoltas, às vezes, inclusive absurdas.
Acredito que na dramaturgia de No humor como na guerra vários quadros sofrem com ações que possuem pouca eficácia teatral. São conflitos sem a força do cômico. Temos a sensação de que o conflito se estendeu além das suas possibilidades. Então muitas cenas se tornam frágeis em suas ações cômicas.
A direção de Charlon Cabral respeita a linguagem textual de Victor Ribeiro de Lima. A linguagem da encenação dos trabalhos de Charlon Cabral (Deus danado, Histórias de lenços e ventos) evidencia fortemente o exercício do jogo teatral.
Em No humor como na guerra ele utiliza o jogo teatral presente no épico (atores interpretando diversos personagens e mudanças de figurino realizadas na frente dos espectadores). A utilização excessiva desses recursos estilísticos afeta o tempo-ritmo do espetáculo, causando uma queda no interesse da ação cênica.
O estilo de encenação de Charlon Cabral centra sempre sua força no trabalho dos atores. A direção de atores elaborada no espetáculo é sustentada pelo intenso jogo cênico. Tarcísio Queiroz, Guilherme de Paula e Kettuly Muniz conseguem utilizar seus jogos corporais e vocais com maior precisão. Lucas Rafael e Susiane Fragoso ainda estão sem força em cena, pois não possuem ações cômicas bem definidas.
Percebo ainda que o trabalho dos atores está muito caricatural. Há um exagero que prejudica o entendimento de algumas cenas, principalmente nos momentos em que a suavidade daria mais graciosidade para a ação cômica. Acredito que o espetáculo precisa de uma melhor dosagem das energias dos atores.
Mesmo assim No humor como na guerra traz a força do grupo Consultoria de Ações Culturais que a cada trabalho vem nos surpreendendo positivamente com suas pesquisas cênicas. A linguagem cênica deste grupo privilegia formas periféricas do teatro, onde a presença do subalterno está no centro da discussão. Por tudo isso, vale a pena conferir esse novo trabalho da Consultoria.
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Indico para os leitores o livro A gargalhada de Ulisses de Cleise Mendes recentemente lançado pela Editora Perspectiva. Neste livro a autora faz um profundo estudo sobre a catarse cômica e os principais procedimentos dos comediógrafos mais famosos. Além deste livro, indico os importantes estudos de Neyde Veneziano (Não adiante chorar: teatro de revista brasileiro, oba!; Teatro de revista no Brasil: dramaturgia e convenções; De pernas para o ar – teatro de revista em São Paulo) sobre as formas revisteiras no teatro brasileiro. Esses livros são importantes pesquisas a partir da linguagem cômica.
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