Que muito amou:
Uma intensa paixão pela cena

por Wellington Júnior

Que muito amou

A Cênicas Companhia de Repertório é um grupo teatral que vem intensamente produzindo uma série de trabalhos (Transe, Um gesto por outro, As criadas). O grupo tem uma forte tendência de diálogo com o universo pop, principalmente com a linguagem dos quadrinhos. 

No espetáculo Que muito amou (que se apresentou na II Mostra Capiba de Teatro) não é muito diferente. O universo pop está presente através da atmosfera urbana, da sonoplastia e da construção imagética. A montagem se estruturou a partir de três contos de Caio Fernando Abreu (talvez um dos contistas brasileiros mais montados no teatro na atualidade). Em Sapatinhos vermelhos, temos uma mulher frustrada com sua relação amorosa e que sai em busca de uma nova vida em diferentes formas da relação amorosa. Praiazinha conta a história de um assassino e seu eterno amor por Dudu, um jovem assassinado. A dama da noite é um desabafo de uma ‘rainha’ urbana contando sua filosofia sobre os ‘modernos’. 

Esses três contos são interpretados por três atores como monólogos, que trazem a idéia de transposição do discurso literário para a escrita dramática. Para essa tradução cênica, o foco da montagem é o embate entre o texto narrativo e as possibilidades interpretativas do ator. 

Na montagem os três atores rendem de formas bem diferentes em suas construções. Na primeira cena, Duvennie Pesssoa compreende bem os objetivos de sua personagem, mas as traduções corporais das ações cênicas ficam prejudicadas principalmente no início da cena. Pois neste momento há um excesso de gestos que tornam a cena sem clareza. Do meio para o final, a atriz consegue vestir sua personagem com ações mais definidas. 

A segunda cena é construída pela interpretação de Antônio Rodrigues. Vejo que esta cena é um dos melhores trabalhos deste ator. Rodrigues vem crescendo em seu mergulho interpretativo. Nesta cena, sua interpretação é estruturada através do diálogo entre partitura corporal e emoção. Assim conseguimos perceber a fúria da morte e o amor explosivo da personagem apresentada pelo conto de Caio. Sinto também que Antônio Rodrigues precisa de um maior apuro vocal, pois assim seu trabalho cresceria mais com uma precisa partitura de ações vocais. Mas com certeza Antônio Rodrigues está conseguindo trilhar um excelente caminho em sua trajetória artística. 

O melhor momento do espetáculo fica na apresentação do último conto. Marcelo Francisco traz para a cena todo o seu domínio técnico para a composição de sua personagem. Seu trabalho está completamente seguro nas ações das personagens. Ele consegue equilibrar bem os efeitos cômicos e dramáticos da cena, mantendo um contato direto e aberto com os espectadores – este é um procedimento importante para o ator que trabalha no teatro narrativo.      

Mesmo assim os trabalhos interpretativos de Que muito amou necessitam ainda de um maior aprofundamento na abordagem das personagens (principalmente em Duvennie Pessoa e Antônio Rodrigues). Talvez seja necessária uma abordagem mais dialética desses textos de Caio.  

Que muito amou é um espetáculo que está em aprofundamento, mas que consegue trazer a energia da paixão para a cena. Assim já é um importante trabalho na trajetória da Cênicas Companhia de Repertório.   


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