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TeatroPE: Em sua trajetória como criador, a música é muito presente. Além de você fazer direções musicais para vários espetáculos no Recife. Queria que você comentasse sobre seus processos de criação na relação música e teatro.


AF: Bem, se você se refere às minhas composições, o meu processo de criação não é diferente do processo enquanto ator ou encenador. Eu gosto de estudar o texto, gosto de sentir a musicalidade que o autor colocou nas palavras para depois fazer a música surgir. Há autores que escrevem verdadeiras partituras vocais, sua escrita tem métrica, ritmo, tempos musicais, harmonia. Quando isto acontece, eu quase posso sentir a música ali no papel esperando apenas para ser transcrita. Isto acontece muito com a obra de Chico Buarque, por exemplo, os seus textos são música pura e suas músicas são verdadeiras peças de teatro. Isto não é uma qualidade apenas de quem é músico e escritor, não é isso que estou falando, eu me refiro a musicalidade interna do escritor, aquela musicalidade que vem de um passado distante que está viva e pulsante dentro de nós. Os textos de João Cabral têm muito isso. Em Flores da América, de João Denys, é impossível não sentir as tonantes de romarias e quermesses quando o lemos, está tudo ali. O problema maior é quando encontramos um texto que não possui estas características, o autor até escreve a letra da música que ele imagina para a cena, mas não é suficiente. Não funciona assim. Não é uma questão de ser competente ou não, é uma característica, só isso. O ato de compor obedece a regras exatas de tempo, de compasso, de distribuição melódica, de harmonia. Não adianta fugir, ainda não inventaram outro caminho. É uma questão técnica. Nem sempre o autor entende isto e acaba se chateando. Por outro lado, a música composta para a cena só tem sentido para mim se estiver de acordo com o pensamento do autor e do diretor. Os conceitos da cena são fundamentais, não tem como fugir disto sob o risco da música ficar apenas na sugestão de uma atmosfera ao invés de ser mais um signo vivo e repleto de intenções dentro do espetáculo. Há alguns anos tenho procurado uma bibliografia apropriada que una os conceitos da música ao trabalho do ator, neste sentido os estudos de Marlene Fortuna e Lucia Helena Gayotto têm sido muito úteis, mas ainda há uma lacuna literária muito grande a ser preenchida neste sentido. Na Companhia Fiandeiros, temos  procurado estudar a relação do ator, sua emissão vocal e a construção da sua partitura de interpretação como fruto da sua percepção musical interior. Acredito que o ator ao interpretar expõe a música que traz dentro de si, neste sentido quanto mais rico for o seu universo musical, mais possibilidades há de se ter uma partitura de interpretação com mais variantes. 


TeatroPE: Como você avalia a política cultural tanto do governo federal, estadual e municipal na área de teatro e mais especificamente as ações culturais na área dos grupos de teatro no Recife.


AF: Acho que já houve um grande avanço, mas ainda temos muito que caminhar. Eu vejo grandes acertos e também grandes contradições. Por exemplo, a migração do SIC estadual para o sistema de Fundo de participação foi uma grande conquista da categoria, pois o sistema de mecenato, a meu ver, já provou que é inviável para a nossa realidade de produção. Neste sentido o governo estadual deu um passo importante e se distancia em qualidade do SIC municipal e federal. Mas ainda há muito que melhorar em questões como: a descentralização da distribuição desses recursos, estabelecer critérios mais claros e mais eficazes para pontuação dos projetos, o excesso de burocracia, mais transparência no processo de seleção. Eu sou a favor de que o projeto tenha a sua defesa feita pelo proponente em sessão aberta ao público, isto daria bem mais transparência e credibilidade ao processo. Entendo também que deveria haver uma avaliação final sobre o resultado do projeto financiado. Uma avaliação que abrangesse a qualidade técnica do que foi incentivado com o dinheiro público, e que esta avaliação servisse como critério de seleção para os projetos apresentados pelo proponente nos anos seguintes. Este ano, o SIC estadual incluiu uma rubrica voltada exclusivamente para incentivar o trabalho de pesquisa de grupos de teatro e dança. Sem dúvida alguma, um avanço significativo, no entanto, esta rubrica só contemplará grupos de pesquisa teatral que tenham sido legalmente constituídos há pelo menos dois anos, mas a grande maioria dos grupos de teatro do Estado sequer tem um estatuto social ou CNPJ, ou seja,  grande parte desses grupos não vai poder se beneficiar este ano deste quesito. Mas isto já sinaliza mudanças na forma de olhar o trabalho dos grupos, o que é bom. Tenho certeza que no próximo ano este quesito será rediscutido e a abrangência será bem maior. Na esfera federal há iniciativas interessantes através da Funarte como o Prêmio Miriam Muniz para o teatro, Klaus Viana para a dança, o estimulo às atividades circenses, os prêmios de dramaturgia, as caravanas de circulação nacional. Enfim há um sem número de iniciativas que estimulam as artes e a cultura de uma maneira geral, mas ainda há uma visão equivocada de que no Nordeste o fazer teatral esta atrelado apenas a uma temática regionalista ou folclórica. Este ano também um ponto positivo no Prêmio Miriam Muniz é o estimulo ao trabalho de pesquisa de grupos de teatro, o que certamente mostra que há um movimento nacional se iniciando que certamente irá estimular a proliferação do trabalho de pesquisa teatral de grupos de teatro. Agora, nós precisamos nos organizar e nos fazer representar neste debate.

  
TeatroPE: Em seu trabalho, como é seu processo de criação?  


AF: Em primeiro lugar, não há um processo, mas sim vários processos. Laura Cardoso uma vez falou assim: “quer saber? Ator se faz com a mão. É prática. Artesanato. Tudo baseado na intuição, na experiência. Assim a química se processa”.  Concordo plenamente com isso. Sou assim quando escrevo, quando componho, quando estou no palco ou quando estou dirigindo, fixo apenas um ponto e digo é ali que quero chegar. A forma como vou chegar é uma variável totalmente aberta e intuitiva e durante a trajetória vou estabelecendo comparações com o que estou vendo e redirecionando o meu olhar. Gosto de reescrever o texto várias vezes até que eu possa ouvi-lo, até que eu possa dialogar com ele. Por exemplo: é impossível não me deixar influenciar pela força criadora do ator quando estou dirigindo. Às vezes, penso horas em como solucionar uma cena, mas quando chego ao ensaio gosto de estimular o ator a procurar a sua forma e quando este, intuitivamente, apresenta uma solução bem mais eficaz e criativa do que a minha, eu me divirto com isso, só me resta comungar e seguir em frente.

Sou um diretor que admiro e respeito profundamente o trabalho do ator. Sua insegurança durante a sua busca pelo personagem me encanta. É muito bonito ver um ator se entregar a esta procura e expor a sua alma, mas isto só acontece quando se estabelece uma relação de confiança com o diretor, e sem esta confiança todo o processo está fadado a não dar certo e é aí que uma tragédia pode virar uma comédia e vice versa.
No espetáculo O alientista (direção de Antonio Cadengue), vivendo o Vereador Crispim Soares

 

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