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TeatroPE: Como em sua trajetória artística você percebe o seu diálogo com a crítica teatral?
AF: Tenho um respeito muito grande pelo trabalho do crítico teatral, até mesmo quando ele está equivocado. Não deve ser fácil assistir um emaranhado de signos no palco, ter que entender as suas relações e transformar isto em palavras. A história tem nos mostrado que o desenvolvimento de um trabalho de qualidade na cena é diretamente proporcional à qualidade da crítica a que ele é submetido e vice versa. Jamais existirá uma crítica interessante sem que haja também um universo de trabalhos dignos a serem analisados. Em cidades como Nova York, uma crítica pode determinar o tempo de vida útil de uma peça. Ainda estamos bem longe dessa realidade. A critica em nosso caso tem mais um compromisso de suscitar uma discussão estética do que estabelecer um juízo de valor sobre um determinado espetáculo e isto eu acho bem mais interessante. Mas claro, quando é bem escrita e este é o grande problema. Sou um artista de teatro, o meu trabalho está exposto no palco para pessoas assistirem e isto inclui o crítico também. Não tenho medo disso. Adoro uma boa conversa, seja consensual ou não, numa roda de amigos sobre o meu trabalho, mas jamais vou me justificar em público, sobre o que alguém falou sobre o meu trabalho, as pessoas são livres para pensar o que quiserem, mesmo que este pensamento seja favorável, equivocado ou injustificável. Eu gosto de ler uma crítica não para saber se ela fala bem ou se fala mal do meu trabalho, ou de qualquer outro, isto não tem a menor importância. O que mais importa é que ela seja bem fundamentada, que revele uma verdadeira intenção de contribuir para o debate estético de maneira inteligente. Isto sim, eu acho altamente proveitoso e enriquecedor para o trabalho do artista. Por outro lado se uma crítica se prende às questões menores e pessoais, com citações pobres, intelectualmente falando, até mesmo um elogio pode soar gratuito e isto é ótimo para inflar egos, mas péssimo para o crescimento do trabalho. Neste sentido, aproveito para parabenizar os envolvidos na criação deste portal, que têm procurado, com sucesso, elevar o nível do debate do teatro em nossa cidade. Vejo uma safra muito boa de pessoas que escrevem sobre teatro e que se preocupam com a qualidade de suas observações, isto é muito bom para a cidade e para o teatro que é feito aqui. Estão todos de parabéns.
TeatroPE: Você foi aluno do CFA (Curso de Formação de Atores) da UFPE e foi professor da Hipérion Escola de Formação de Atores. Como você pensa a formação dos atores em Recife?
AF: Quando entrei no CFA, em 1990, um professor me perguntou: “você gosta de teatro?”, eu respondi que sim, aí ele falou: “que bom, então você está no lugar certo, porque se você não conseguir ser ator, pelo menos vai ser um bom espectador”, eu achei aquilo esquisito e não entendi bem na hora. Hoje eu percebo o que ele quis dizer. O teatro é uma arte que requer pensamento, não falo de inteligência, falo de pensamento, de criatividade e da capacidade de fazer múltiplas leituras, tanto para quem está no palco como para quem está na platéia. Infelizmente, criou-se um estigma de que para ser ator basta subir num palco e dizer um texto. Teatro não é isso. O fundamento principal do trabalho do ator é a leitura, é através dela que estimulamos a nossa criatividade, ela é a força motriz de nossa imaginação. Projetos como o Festival Recife do Teatro Nacional colocaram o Recife no circuito das grandes capitais do teatro brasileiro (no nível de Belo Horizonte, Porto Alegre, São Paulo, Curitiba). No entanto, a cidade carece de uma estrutura de formação técnica de mão de obra especializada para o teatro, quer seja de interpretação, de direção, de figurinista, de iluminador, maquinaria, cenografia. Iniciativas como a que o Sesc realiza através dos seus cursos de formação são muito importantes, mas não são suficientes. A UFPE, através do curso de Artes Cênicas lança no mercado de trabalho arte-educadores que vão aos poucos abrindo o seu espaço através do talento individual de cada um. Cidades como João Pessoa e Salvador já estão bem mais adiantadas e já apresentam projetos acadêmicos de graduação e pós-graduação em interpretação e direção teatral, por exemplo. Aqui no Recife, identifico um fenômeno bastante interessante, as pessoas fazem uma oficina de teatro e já se acham atores, iluminadores, cenógrafos. Oficinas, workshops não são, nunca foram, nem jamais serão formação básica para ninguém.
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São importantes, sem dúvida alguma, para o aprimoramento do aprendizado, mas isoladas não têm sustentação acadêmica para formar um profissional. Insisto em dizer que é necessário uma gestão mais ampla deste problema. Os órgãos governamentais de cultura, juntamente com a comunidade acadêmica, artistas, enfim todos nós precisamos equacionar esta necessidade o mais urgentemente possível para encontrarmos uma solução para o problema. Não se justifica o Recife ter uma das maiores produções teatrais do país e ser ao mesmo tempo tão carente na formação dos seus profissionais de teatro. |
| Na montagem de Lima Barreto (direção de Antonio Cadengue), vivendo Policarpo |
TeatroPE: Você tem uma paixão especial com o teatro para a infância e juventude. Como pensa essa forma de teatro no panorama teatral recifense?
AF: Recife tem uma forte tradição no teatro para infância e juventude. Foi por aí que eu comecei a fazer teatro. A minha primeira peça infantil foi Cantarím de cantará, de Sylvia Orthof, uma produção da Dramart Produções. De fato, sou um apaixonado pelo diálogo com a criança. Acho que transfiro para o palco a minha incapacidade da comunicação direta com elas. O universo infantil é muito mais exigente, rico e sincero do que o nosso de adulto. Tenho uma opinião diferente de muitas pessoas que acham que o teatro feito para a criança hoje no Recife foca apenas o entretenimento. Sempre houve e sempre haverá montagens que privilegiam o lugar comum e a mera diversão, mas percebo uma busca, uma inquietação no panorama atual que é bastante interessante, sobretudo quanto ao desenvolvimento de uma dramaturgia própria. Sinto falta apenas de mais diálogo, de mais interação entre os grupos de criação.
TeatroPE: Você realizou muitos trabalhos de direção musical nas encenações de José Manoel. Como foi essa parceria artística?
AF: Trabalhar com José Manoel é sempre um grande prazer. Fizemos vários trabalhos juntos (O mágico de Oz, O menino do dedo verde, As aventuras do Barão de Langsdorf, Com Panos e Lendas, Cantigas ao pequeno príncipe, Avoar). Sem dúvida alguma ele foi o responsável para que eu permanecesse no teatro num momento bastante difícil na minha vida. Com José eu aprendi a compor para o teatro. Na época eu ainda não sabia como associar a musica à cena. Há um erro bastante comum quando se compõe para o teatro que é o de não se procurar entender o objetivo da cena. Isto faz com que a música se superponha a ação, não apenas em volume mas em intenção, ou o inverso. Assim a cena pode ficar cantada ou a música pode ficar encenada, o que é enfadonho de se ver. Eu diria que os trabalhos que realizei com José foram acontecendo num processo de aprendizado crescente que me ajudaram muito a compreender esta relação entre a música e a cena e muito dessa compreensão eu devo a ele por ter tido paciência e ter sido tão generoso com meu trabalho.
TeatroPE: Você tem uma longa e importante trajetória como ator. Trabalhou com diversos diretores da cidade (Antônio Cadengue, Carlos Carvalho, Marco Camarotti). Quais são as influências desses criadores no seu processo de encenação?
AF: É difícil identificar onde este ou aquele diretor me influenciou, não dá para discernir. Eu sempre fui uma pessoa que tive e tenho muita vontade de aprender cada vez mais sobre teatro. Eu até colocaria mais nomes na lista como José Francisco, Carlos Bartolomeu, João Denys, Geninha da Rosa Borges, George Moura, todos eles, direta ou indiretamente, me ensinaram muito. Até porque a minha formação, embora tenha tido nos primeiros anos uma base acadêmica, deu-se muito pela prática. Cada encenação que eu participo eu sempre vejo como uma aula, um novo aprendizado, uma nova oportunidade de visualizar o teatro por uma ótica diferente e conseqüentemente como uma nova influência.
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| No espetáculo Os biombos (direção de Antonio Cadengue), vivendo o Policial. |
TeatroPE: Hoje você como encenador você tem uma importante parceria com o ator, cenógrafo, figurinista e maquiador Manuel Carlos. Como é essa parceria criativa no processo de encenação?
AF: Não poderia ser melhor. Manuel e eu já temos uma trajetória de quase vinte anos trabalhando juntos, e nos últimos cinco anos esta relação se fortaleceu ainda mais quando passamos a trabalhar juntos na Fiandeiros. Esta aproximação serviu também para nos tornarmos bons amigos. É uma pessoa extremamente sensível e competente, um apaixonado pelo teatro e um profissional que eu respeito muito. Nossas escolas são bem parecidas, e isto facilita o nosso diálogo. Tive o privilégio de dirigi-lo pela primeira vez em O capataz de Salema e por diversas vezes ele me emocionou com o seu trabalho. A partitura que construímos para Sinhá Ricarda foi um rico aprendizado para mim como diretor. Pouca gente sabe, mas ele realiza um trabalho comunitário através do teatro em Muribeca. Um trabalho reconhecido internacionalmente, mas que ainda passa despercebido em nossas terras. Manuel é um desses artistas repleto de conhecimento, talento e generosidade. Tenho muito orgulho de compartilhar com ele este nosso sonho de ser um fiandeiro. E enquanto o nosso fio de arte estiver desenrolando, que nossos sonhos se tornem realidade.
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A partitura que construímos para Sinhá Ricarda foi um rico aprendizado para mim como diretor. Pouca gente sabe, mas ele realiza um trabalho comunitário através do teatro em Muribeca. Um trabalho reconhecido internacionalmente, mas que ainda passa despercebido em nossas terras. Manuel é um desses artistas repleto de conhecimento, talento e generosidade. Tenho muito orgulho de compartilhar com ele este nosso sonho de ser um fiandeiro. E enquanto o nosso fio de arte estiver desenrolando, que nossos sonhos se tornem realidade. |
| O Ator Manuel Carlos, como Sinhá Ricarda |
TeatroPE: Quais os futuros projetos da Companhia Fiandeiros de Teatro?
AF: A companhia ainda insiste numa proposta de uma associação para os grupos de investigação teatral em nossa cidade. Acreditamos que a nossa união será de fundamental importância para a sobrevivência dos grupos num futuro próximo. Há, aproximadamente, dois anos falávamos da importância desta organização, pois sem ela não teríamos força política para propor mudanças na forma como o poder público nos vê. Não conseguimos nos organizar. Hoje o estímulo ao trabalho de grupos já é uma realidade não só em Pernambuco, mas também no Brasil. Basta ler a minuta do edital Myriam Muniz no site da Funarte, ou o edital do SIC do nosso estado para comprovar isto. Se tivéssemos nos organizados desde o ano passado poderíamos interferir de maneira mais incisiva neste processo propondo sugestões de acordo com a nossa realidade. Infelizmente isto não ocorreu, mas vamos continuar tentando. No próximo ano, quem sabe, possamos falar uma só voz. Mas vamos em frente. Quanto à nossa pauta de trabalho, temos consciência de que vamos ter nos próximos anos muito que fazer. Em primeiro lugar, a manutenção do repertório vai exigir um grande esforço nosso, queremos manter em repertório os espetáculos: Vozes do Recife, O capataz de Salema e Outra vez, era uma vez. Ao mesmo tempo, temos procurado lançar um olhar sobre nossa condição de brasileiro, de pernambucano, de recifense e é inquietante nos percebermos estrangeiros dentro de toda essa realidade. Nós somos estrangeiros quando não somos percebidos, quando falamos e não somos ouvidos nem compreendidos, quando trabalhamos e este trabalho não é reconhecido, quando pensamos, quando existimos e esta existência está atrelada a um padrão, uma norma, uma idiotização do nosso pensamento. Há muitas formas de se ser estrangeiro dentro de si próprio. Temos consciência do grande desafio que será isto. Não temos a menor idéia aonde chegaremos. Mas é o que está se desenhando à nossa frente e é sobre isto que estamos com vontade de falar. Aliado a este projeto, vamos dar continuidade à busca por uma dramaturgia original que se identifique com o nosso grupo e sirva de apoio a toda nossa reflexão.
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| Espetáculo Vozes do Recife que integra o repertório da Companhia Fiandeiros de Teatro |
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