Adriano Marcena e a nova dramaturgia pernambucana — PARTE I
por Bruno Siqueira

 
Nosso meio teatral tende a demonstrar um comportamento meio perverso com relação aos novos talentos. Há, aqui, um corporativismo que, se em alguns contextos poderia constituir postura necessária para a defesa dos interesses da classe teatral, neste nosso contexto afigura-se como posicionamento que trái, quase sempre, uma vaidade afetada e um poder muito maior nos propósitos do que na realidade de fato. Como n’O Balcão genetiano, há personalidades que, no espaço de nosso cenário artístico, se põem como figuras institucionalmente grandiloqüentes, mas suscetíveis de, a qualquer momento, verem suas máscaras tombarem, e de se depararem com o fato de que são tão comuns como as demais. Mas o que estou eu falando?
Adriano Macena

Em tempos pós-modernos, a máxima do rei Salomão resulta num lugar-comum destituído completamente de sentido. Viva o glamour (mesmo que, para realçar o brilho, seja válido o uso de muita baba)!

Quero começar, aqui, a refletir sobre algumas produções dramatúrgicas de Adriano Marcena, escritor recifense que ainda não recebeu nenhuma atenção significativa da crítica especializada, apesar de já ter escrito aproximadamente 55 textos dramáticos, desde os anos de 1980 para cá, e apesar de ter sido sua peça A ópera do sol vencedora do concurso “Estímulo à Dramaturgia”, promovido pela FUNARTE/MEC, e contemplada com o Prêmio Elpídio Câmara, categoria Teatro, do Concurso Literário Cidade do Recife, o que resultou em sua publicação, no ano de 1998. Se boa parte desses textos representa experimentações de um artista que esteve buscando o amadurecimento de seus próprios meios de expressão, outros já sinalizam produções esteticamente acabadas e louváveis.

Tratarei, por ora, especificamente d’A ópera do sol, cujo texto foi gentilmente cedido pelo autor para divulgação em nosso Portal. A peça traz como subtítulo “Uma Odisséia Nordestina No Sertão Pernambucano” e é classificada como Ópera-Repente. Como toda obra literária, a partir do modernismo, temos então um texto que problematiza sua configuração num determinado gênero. Sem dúvida, constitui um texto dramático, mas a pureza do gênero se perde ante a presença da estrutura épica, já subentendida a partir da intertextualidade contida no subtítulo (Odisséia). Além disso, o título não deixa dúvida de que se trata de uma ópera, porém de traços marcadamente populares, como o termo “repente” faz antever.

A rigor, o trabalho de Adriano Marcena não é nem um drama, nem uma ópera, nem uma epopéia, nem um repente, se tomarmos os termos isoladamente, tentando descrever a pureza dos gêneros artísticos. Cada uma dessas espécies de arte literária ou musical empresta à obra traços estilísticos, resultando numa composição híbrida de significativas implicações estéticas.

Fazendo jus ao título, é a ópera o carro-chefe da estrutura textual, a qual mantém paralelo com a estrutura do libreto. Há n’A ópera do sol elementos próprios da ópera clássica, tais como duetos, coros, intermezzos orquestrais etc. Marcena é autor não só das falas, mas também das partituras, o que demonstra sua versatilidade, revelando domínio tanto da composição textual quanto da musical. Como ópera séria, que veicula assunto épico e engrandecedor, o trabalho conta com uma imensa galeria de personagens, distribuídas em duas bases: as dos coros (no total de nove tipos) e as personagens-solistas (sete).

A saga dessas personagens se passa no sertão tórrido de Pernambuco. O sol se torna símbolo de uma natureza que oprime os seres viventes. Sob essa opressão do meio natural, arma-se o cenário da opressão homem vs. homem. Nesse ponto, a peça retoma o antigo tema da exploração pelo trabalho: de um lado, o dono do capital e dos meios de produção; de outro, lavradores explorados impiedosamente, num regime de semi-escravidão.

Houve um tempo em que artistas, críticos e intelectuais se dedicavam a denunciar a miséria no campo, nos meios rurais. Dos anos de 1970 para cá, proliferaram os temas que retratavam ou denunciavam realidades urbanas importantes na luta pela superação das injustiças sociais de diversas ordens. Isso não quer dizer, no entanto, que a miséria no campo e nas regiões mais afastadas dos centros urbanos foi sanada. Pelo contrário, aqui e acolá espocam nos veículos de comunicação de massa denúncias de exploração do trabalho humano nessas regiões: crianças de 4 ou 5 anos de idade que trabalham de segunda a sexta-feira para ganhar R$ 1,00 por dia; canavieiros que trabalham em condições precárias, para não ganhar sequer um salário mínimo; trabalhadores em regiões de extração de madeira, mantidos em cativeiro, sob ameaça de morte; sindicatos comprados por usineiros e capitalistas em geral, desamparando os trabalhadores braçais; etc etc etc.

Muitos cantadores populares continuam a representar tal realidade, pois eles convivem e conhecem essa situação. O tema que Marcena tomou para a sua peça é, infelizmente, muito atual. Contudo, é o tratamento formal e estético dado ao tema que faz d’A ópera do sol uma obra de arte. Em depoimento, Marco Camarotti considera a peça “uma obra-prima”. Estou de acordo com a opinião do saudoso Camarotti, que foi, dos anos de 1990 para cá, uma grande autoridade pernambucana no estudo do teatro popular.

Como se trata de uma ópera que visa à denúncia de uma realidade social opressora, é inevitável a comparação desse teatro épico com o projeto estético-político de Bertold Brecht. O método de que se vale a obra de Marcena se distancia do método dialético no teatro épico brechtiano. Neste, a realidade é disposta de forma complexa, de maneira que o dramaturgo transcende o mero esquematismo maniqueísta. Se há nessa dramaturgia épica o conflito de classes, as personagens envolvidas, independenetemente do estrato social em que se inserem, apresentam motivações que impossibilitam um juízo de valor que as qualifique como “boas” ou “más”; vítimas ou algozes. Todas as personagens estão imersas num sistema político e econômico que as absorve implacavelmente. Em Marcena, a realidade se põe de forma maniqueísta, característica geral das representações do grupo que pertence à camada desprivilegiada. Forjando uma simplicidade na representação da realidade, pelo viés do maniqueísmo, é possível sensibilizar mais o público, promovendo mais facilmente a catarse e, conseqüentemente, a tomada de posição política.

Para quem me conhece, sabe que sou propenso à apresentação dialética da realidade. Se não fosse o trabalho monumental que faz Marcena em seu texto, não só na composição dos versos (todos metrificados, conforme a poesia de cariz popular), mas também na riquíssima concepção cênico-musical, o texto correria o risco de não passar de um simples e simpático panfleto. O autor contorna muito bem esse risco, oferecendo-nos uma obra encantadora e politicamente atuante.

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