...continuação

Como disse, acima da opressão que os homens exercem sobre os outros, há uma opressão muito maior, que a primeira não contribui para dirimir: a do meio natural sobre os homens. A ópera do sol a expressa não por meio de uma tensão crítica entre as personagens e as pressões da natureza, mas por meio da sugestão simbólica, tomando, desta feita, as representações mítico-religiosas do povo. Daí o papel conferido ao elemento do título, o Sol.

O coro das Rezadeiras anuncia que São José está vendo tudo do alto do céu e que não está contente com o que anda acontecendo em nossa terra. Para castigar os homens, enviará ao sertão a fúria do fogo do sol, matando as lavouras, os homens, inclusive os gananciosos. O coro das Rezadeiras se junta ao dos Miseráveis: “Descerá sol em fúria no sertão/ Chuva só quando a terra se queimar/ Terra pro Lavrador não vai faltar/ Choverá no período do verão/ Garantindo a água, a plantação/ Pros que herdarem uma parte deste mundo/ Sumirá fazendeiro vagabundo/ Donatário da morte programada/ Plantador da miséria enlatada/ Nos tirando o que temos de profundo”.

A maldição é lançada: “Carne-viva opressora vai cozer/ Suas cédulas e terras irão queimar/ Morrerá todo pobre sem penar/ Todo povo terá o seu perdão/ Para o céu todas cinzas subirão/ E os ricos irão virar estrume/ Espalhados no chão como curtume/ Pras dez noites de grande escuridão”. É a vingança e a desforra do oprimido contra o opressor, mediada pela intervenção do sobrenatural.

Uma tal religiosidade, que conforta o sertanejo contra a opressão do homem e do meio, nos remete à frase atribuída a Antônio Conselheiro – “O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”. Por sua vez, essa profecia paira por todo o sertão nordestino, muito antes do Conselheiro, sobrevivendo na esperança e na alma do sertanejo.

Essa matéria mítica e religiosa é tomada por Marcena como símbolo de que o Homem, apesar de achar o contrário, é muito vulnerável às forças da Natureza e do Universo. Desunidos, em busca de satisfações individualistas, mostram-se muito mais suscetíveis às adversidades do meio. Significativo é o desfecho da peça, quando o sol está descendo e se aproximando da terra, e o Coro dos Soldados e o dos Capatazes do Coronel Faúzi atiram contra o astro celestial. Se as espingardas do poder instituído coibiam as revoltas populares, amedrontando os manifestadores, nada podem fazer contra o poder da Natureza, tornando ridículos os tiros contra o Sol. Ele esmaga os sertanejos, e a cena é invadida por uma intensa luz amarela.

Montar esse texto de Adriano Marcena é um desafio a qualquer encenador. Exige o manejo de diversos conhecimentos. No mínimo, o encenador terá de contar com o trabalho de um grande elenco, de um orquestrador, da assessoria de um artista e cantador popular, entre outros requisitos. Um bom texto requer uma encenação à altura. Aguardemos.
Capa - Ópera do sol

Comente a matéria:

Comentar esta Enquete

 

pág. 01 | 02