Feteape – a política, o teatro e o amador
por Júnior Aguiar (aguiarecife@hotmail.com)
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Comemoração do Dia Mundial do Teatro 1981 |
Há de se imaginar a infindável trama que constitui a perene realidade do teatro em cada lugar e em cada época, cuja força vital decorre, no mínimo, de uma necessidade antropológica. E assim ele resiste, persiste, para não chegar ao fim, ao esgotamento, ao esvaziamento, a superação decadente de uma lingagem ultrapassada.
E são por essas razões que a arte dramática assim deve permanecer: viva e articulada aos novos contextos da contemporaneidade. Por isto, concordo com Mariângela Alves de Lima, quando elucida que as artes cênicas só se revelam inteiramente ao olhar disposto a superar as interpretações correntes. E ainda prossegue nos dizendo: “É, pois, o infatigável trabalho de reformulação da idéia do teatro que permite voltar os olhos ao passado e reconhecer que o teatro estava presente onde supúnhamos ausente. Por esse mesmo esforço a manifestação cênica atual, apesar da relativa singeleza dos meios, é capaz de investir de significado o aqui e o agora que constituem a um só tempo o seu limite e razão de existir”.
Então, nosso olhar deve ser muito mais atento. A percepção e o conhecimento influenciam as atitudes que formam nossos cenários de atuação. E por essa necessidade de avanço social, cultural e estético devemos refletir o que J. Guinsburg, nos seus ensaios, já nos alertou: “Fez-se no Brasil um teatro bem mais vivo e significativo do que supunham os seus criadores, críticos e espectadores”.
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Comemoração do Dia Mundial do Teatro 1986 |
Muitas vidas foram colocadas à disposição desta “arte coletiva”, em todas as regiões do país, e não só exclusivamente no eixo Rio - São Paulo, para ver concretizado um projeto de teatro nacional: rico, plural e sustentável. Esta consciência e este desejo dependem, até hoje, de atitudes políticas, vinculadas a uma ampla visão do poder da cultura como patrimônio humano fundamental, que gerem proposições e reinvindicações, constantemente, para a elaboração dos projetos, programas e procedimentos de desenvolvimento do setor e de sua classe artística, reconhecida e representada pelas entidades. Isto, se não quisermos que tudo posteriormente seja destruído, esquecido e escamoteado. Na maioria das vezes os processos precisam de maior legitimidade.
Até hoje, a quantidade de grupos, companhias, produtoras e coletivos surpreende qualquer estudioso. Independente dos diferentes níveis ou das polêmicas classificações em torno do teatro amador e profissional. Múltiplos e dispersos são os caminhos de cada grupo. Do popular ao erudito, do regional ou experimental, com ou sem estrutura, era preciso, primeiramente, re-unir os grupos. Reconhecê-los. Representá-los E assim nasce a história das federações.
Em 1974 é criada a Federação Nacional de Teatro Amador – FENATA. Uma entidade autônoma, de âmbito nacional, com personalidade jurídica própria, organizada com base em sete coordenações regionais. Destas coordenações surgem as federações estaduais. Atualmente existem 45 federações de teatro no Brasil.
A Federação do Teatro de Pernambuco foi constituída no dia 09 de fevereiro de 1976 num encontro realizado na casa da cultura. Era a primeira entidade das artes cênicas surgida no estado.
Muitos nomes importantes do nosso teatro tiveram papéis de destaque neste processo político de organização do Movimento Teatral de Pernambuco. Primeiramente é fundamental citar os nomes de José Francisco Filho que foi o primeiro conselheiro fiscal, primeiro representante, em Pernambuco, da Federação Nacional de Teatro e primeiro presidente da Feteape. Igualmente importante foi Marcos Siqueira que naquele momento defendeu que “a criação de uma entidade civil não deverá ser outra coisa se não a concretização dos propósitos de uma classe ou categoria”.
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Abertura do II Festival Brasileiro de Teatro 1985 |
A Feteape, naquele momento, como já foi dito, tinha como principal objetivo reunir todos os grupos do estado. Reafirmar esta união, até hoje, permanece como um dos seus principais deveres neste universo de 186 municípios É a visão contemporânea das redes, das articulações entre os pólos, da livre circulação que gera, naturalmente, trocas de experiências.
Principalmente, através da reunião das entidades constituídas e dos artistas livres (na forma de Assembléia, Congresso, Seminário ou Fórum), pode haver a defesa fortalecida, de uma clara e moderna política cultural, que reforce, incansavelmente, a necessidade de manutenção, formação e circulação permanente dos bens culturais produzidos por cada um desses agrupamentos artísticos do interior à capital e entre todas as regiões.
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Lançamento do Livro de Romildo Moreira 20 Atos de longos anos teatrais |
O ator, autor e diretor teatral Romildo Moreira fez uma pesquisa relevante sobre os principais acontecimentos da Feteape e em 1996 publicou o livro 20 atos de longos anos teatrais – A história da federação de teatro de Pernambuco. Nele, Romildo nos apresenta informações e entrevistas que reconstituem boa parte desta trajetória que já completou 32 anos.
Nesse estudo, constatamos alguns fatos relevantes, como: o pioneirismo, a vanguarda e a oportuna e coerente postura profissional que o teatro do estado de São Paulo conseguiu desenvolver, que mesmo antes da criação de uma federação nacional de teatro e das próprias federações estaduais, já apresentava nas suas atividades, uma confederação estadual de teatro, própria e representativa. Também a Bahia, merecidamente destacada e engajada, com a criação em 1954 da primeira federação de teatro do país. E as contribuições pontuais do estado de Pernambuco na construção da cena brasileira. “Todos os grandes movimentos da década de 80, no Brasil, Pernambuco participou na sua maioria, através da federação [...] a entidade estava em todos os cantos do estado e com crédito nacional” resume José Manoel.
Por mais de três décadas, a Feteape foi marcada pela gestão de cada um de seus presidentes, treze no total, podendo, até mesmo concluirmos, que sua história são as diretrizes traçadas por cada um desses nomes em particular. Foram eles: José Francisco Filho, Celso Muniz, Conceição Muniz, Paulo de castro, Zélia Sales, José Manoel, Tereza Amaral, Willians Sant’Anna, Didha Pereira, Feliciano Felix, Romualdo Freitas, Zácaras Garcia e Roberto Carlos. Cada um, à sua maneira, sempre com poucos recursos de estrutura, e, às vezes, com muitas divergências, causaram polêmicas, brigaram, se enfraqueceram e se fortaleceram, contraditoriamente, ao longo dos anos, a ponto de no presente tempo muitos se perguntarem sobre o sentido da existência da Feteape. Qual sua real identidade? Quais finalidades prioritárias deveriam nortear seus novos projetos? Defensor ou não do teatro Amador? Muitas questões exigindo reflexões variadas e aprofundadas para não perder o sentido e a função de ser um federação com poder de representação.
Histórias não faltam para cada um desses períodos e o livro de Romildo Moreira nos oferece um breve panorama destes acontecimentos, que por fim, são parte da história do nosso teatro, como: a crise na administração de Celso Muniz tachada de preconceituosa e separatista, pois ele desejou que a Feteape representasse “um número menor de grupos, mais artístico e politicamente importantes, que um universo enorme sem expressividade”. Ou a defesa de Paulo de Castro por uma postura menos amadora e mais profissional abrindo, pela primeira vez, diálogo com o poder público. Em seu depoimento no livro, provocou dizendo que “essa questão me honra muito. Da gente ter saído da pobreza do umbigo da gente e partir para o gabinete público”. José Manoel e Tereza Amaral, cada um no seu momento, aprofundaram o alcance da federação no interior criando as cinco regionais (metropolitana, mata sul, mata norte, agreste e sertão). Hoje são 135 grupos inscritos na federação.
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Todos Verão teatro 2008 - Serra Talhada Oficina de Interpretação |
Roberto Carlos está prestes a deixar a presidência da federação. Novas eleições se aproximam e outros rumos serão tomados. Ele também seguirá desafios mais altos. Irá presidir a recém criada Confederação Brasileira de Teatro que ocupou o lugar da antiga Confenata. Como herança, diz haver encontrado o formato ideal para o projeto mais antigo da federação – o festival TODOS VERÃO TEATRO.
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Todos Verão Teatro 2008 Bom Jardim |
Na sua décima quinta edição, depois de algumas baixas, o Festival mergulhou de cabeça e coração no nosso vasto interior. Lá, os grupos da localidade são mais prestigiados e as cidades celebram a rara oportunidade de comungar com o teatro. Aqui na capital esses grupos eram ignorados, ficando os teatros na sua maioria vazios para recebê-los. Mesmo que o maior sonho de todos estes grupos seja viajar para a capital na tentativa de apresentar-se nos grandiosos teatros da cidade.
O TODOS VERÃO TEATRO deste ano contou com patrocínio da Prefeitura do Recife e da Fundarpe, oferecendo 29 espetáculos teatrais na capital e nos municípios de Caruaru, Limoeiro, Serra Talhada, Bom Jardim, Vitória de Santo Antão, dentre outros.
Para quem desejar aprofundar o assunto, recomendo a leitura do livro de Maria Helena Künher – Teatro Amador – Radografia de uma Realidade.
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