Rubem Rocha Filho
O homem do mundo e do Recife 
por Romildo Moreira*

Rubem Rocha Filho, à direita, com Valdi Coutinho em As Tias, 1983, direção de Guilherme Coelho (Acervo Memórias da Cena Pernambucana)

Generosidade. Esta é a primeira palavra que me ocorre ao escrever estas poucas linhas sobre Rubem Rocha Filho, que, de tão generoso, empregou todo o seu conhecimento (vastíssimo) e erudição para contribuir com o crescimento dos que lhes cercavam: alunos, artistas, companheiros de cena, intelectuais e demais Severinos que dele se aproximassem.  

Era, invariavelmente, com um sorriso, um abraço e uma disposição invejável que ele recebia quem o procurava, por qualquer motivo. Com humor fino e elegante Rubem sempre dava as respostas necessárias, com a humildade que lhe caracterizava. E com esta generosidade sem limites, ele vai continuar a nos ser útil, através da obra literária que produziu, em especial os títulos destinados ao estudo teatral, tais como: A personagem dramática; O teatro e o inconsciente e Anjo ou demôniomalandro ou herói, respectivamente editados pelo Ministério da Cultura e Prefeitura do Recife.  

É também de se admirar o carinho e o respeito que ele nutria pelos jovens (crianças e adolescentes), para quem dedicou horas afio da sua existência, quer contando histórias, lendo seus textos ou escrevendo livros lindos como: A travessa travessia e Tilico no meio da rua.  

Este homem admirável e este artista inquieto, nos deu o prazer de escolher a cidade do Recife para morar, tendo tantas opções dentro e fora do Brasil, preferindo a riqueza da cultura nordestina com a simplicidade do seu povo para com ela conviver. E conviveu carinhosamente com todos os Severinos das anônimas Marias que cruzaram o seu caminho nos palcos da vida e das casas de espetáculos por onde trabalhou, montando espetáculos memoráveis tais como: Romeu e Julieta, para o público jovem; e O Inspetor vem aí, para o público adulto.  

Mas, como ele mesmo dizia, a sua melhor fase de produção cênica na capital pernambucana foi quando ao lado da bailarina e coreógrafa Mônica Japiassu introduziu em nossos palcos a junção dança/teatro, produzindo obras como: O anjo azul; Morte e Vida Severina; Verde que te quero verde e A flauta mágica.  

Tanto a parceria com Mônica quanto os resultados obtidos eram motivo de orgulho para ele, assim como orgulho para o teatro pernambucano produzir espetáculos desta monta, graças a existência desta dupla de criadores. É curiosa observar que Mônica, como Rubem, também adotara o Recife para morar, vinda de São Paulo e aqui permanecendo por escolha pessoal. 

Rubem nasceu no Rio de Janeiro em 1939, se formou em dramaturgia na universidade americana Wesleyan, em Connecticut, e fez teatro na Itália com os artistas da Academia Silvio D’Amico, em Roma. Viveu e trabalhou em Londres de 1971 a 1979 escrevendo e produzindo programas para a Rádio BBC, onde também ensinava Cultura Brasileira no King’s College da London University.  

Pois bem, foi este carioca do mundo que nunca perdeu o sotaque das terras de São Sebastião que, ao retornar ao Brasil aportou no Recife e tornou-se um novo pernambucano, admirador que era de João Cabral de Melo Neto, Gilberto Freyre, Ascenso Ferreira, Hermilo Borba Filho e Joaquim Cardozo, entre tantos outros das terras do Leão do Norte.  

Faleceu em 28/05/08 no Recife onde foi sepultado. 

Por Rubem Rocha Filho teremos sempre a gratidão pelo privilégio de tê-lo acolhido e recebido em troca a riqueza de espírito e a grandeza da sabedoria que lhe preenchia as vísceras da cabeça aos pés.  

Obrigado, amigo, por tudo! 
 

* Ator, autor e diretor de teatro.