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Aqueles dois (Foto deVal Lima) |
Aqueles dois, espetáculo inspirado no conto homônimo de Caio Fernando Abreu, chegou ao Recife com a aclamação da crítica especializada do país. Essa montagem é realizada pela Companhia
Luna Lunera de Belo Horizonte.
Acompanhamos em cena a trajetória de amizade entre Raul e Saul dentro de um mundo completamente estagnado, como eles mesmos dizem “um deserto de almas”. São personagens comuns que trabalham numa mesma firma e acabam construindo uma tocante trajetória de vida que se mistura, se funde; sem darem conta dessa união tão forte.
Com exercícios de contato improvisação essa história começa, enquanto o público entra no teatro. Vemos então um espaço vazio rodeado por objetos do cotidiano. Sentimos esses atores afogados por esses objetos realistas. As personagens “vivem”, colocando-se em situação; e os atores narram e se mostram. Então surgem em cena considerações, confidências e impressões dos atores e das personagens entre si - e para os espectadores.
O espetáculo tensiona o exercício entre o épico e o dramático, possibilitando a tradução cênica de um conto para a cena dramática teatral. Para tanto, os atores-criadores construíram uma dramaturgia espetacular que ajuda na realização dessa transcrição cênica.
Essa dramaturgia está alicerçada na proposta de uma épica íntima, onde os depoimentos emocionais ganham forte intensidade. Há uma grande capacidade de comunicação emocional com os espectadores dentro desse formato dramatúrgico.
Mas essa mesma estrutura textual se mostra em vários momentos bastante frágil, principalmente no início do espetáculo, quando busca caracterizar a idéia de rotina presente na firma onde trabalham Raul e Saul.
Nessas unidades iniciais de ação, o diálogo construído pelos atores-criadores não consegue se estabelecer como uma estrutura poética eficaz, ficando preso a uma banalidade sem sentido que não contribui para o desenvolvimento da trama. Essa caracterização dialógica poderia ser mais bem estruturada. Assim a rotina e o cansaço da firma acabam dominando também os espectadores.
A direção do espetáculo segue e respeita fielmente essa escrita dramatúrgica, ajudando através das ações cênicas a criar as atmosferas, os climas presentes no texto elaborado a partir da obra de Caio Fernando Abreu.
A linguagem dos movimentos e composições visuais do espetáculo se estabelece através do objetivo de esclarecer e clarear a estrutura fabular composta pelo tecido dramatúrgico. Há imagens e ações cotidianas e banais que ganham uma estrutura poética – uma poesia da vida comum.
O espaço e a luz são em sua maioria constituídos por elementos cotidianos do universo desses personagens, estão lá: as gavetas, as luminárias, a televisão, os aparelhos de som. Entendemos o humano através de seus objetos, das luzes que os cercam. Assim também se constitui a trilha sonora do espetáculo através das músicas que dominaram o imaginário dos anos 80 (tão importante para a escrita de Caio e parece que fundamental para a dramaturgia elaborada pela
Luna Lunera).
As interpretações seguem perfeitamente a linguagem cênica proposta pelo texto, então os atores transitam entre personagens e narradores. Em suas interpretações aparecem suas verdades, seus pensamentos. Fica bem claro para os espectadores como eles acreditam nesse trabalho que realizam. Vemos o tempo inteiro um ir e vir no jogo.
Há durante todo o espetáculo um diálogo franco e aberto do elenco com os espectadores. Inclusive em um dos momentos do espetáculo os atores dedicam seu trabalho. Essa montagem da
Luna Lunera é essencialmente texto e ator.
Os atores (Odilon Esteves, Rômulo Braga, Cláudio Dias e Marcelo Souza e Silva) fazem com que a palavra ganhe emoções, verdades através de suas corporeidades, suas ações, seu diálogo aberto com os espectadores. As duas personagens, Raul e Saul, são vividas pelos quatro atores, como uma idéia de múltiplas possibilidades de olhar essa íntima relação entre esses dois seres.
Como a estrutura interpretativa da montagem está fortemente alicerçada na dramaturgia, quando os momentos de fragilidade dramatúrgica aparecem então o trabalho dos atores sofre um forte abalo. Mesmo assim observo que o trabalho de Odilon Esteves é o que está mais claramente íntegro dentro do pensamento cênico construído no espetáculo
Aqueles Dois.
A presença do espetáculo da
Luna na grade programação do
XI Festival do Recife do Teatro Nacional é muito significativo por nos trazer questionamentos sobre as eficácias da estrutura rapsódica no teatro contemporâneo brasileiro e principalmente por observarmos um trabalho de dramaturgia de atores-criadores, que está se tornando uma marca da cena atual.
Vemos nesse espetáculo as tensões do dramático e do épico numa dramaturgia rapsódica que busca caracterizar as banalidades do cotidiano e ao mesmo tempo poetizar as ações comuns. Além de observarmos os acertos e os entraves de uma dramaturgia de atores, principalmente na caracterização dos diálogos. Por isso, é fundamental acompanhar a trajetória desta importante companhia nacional.