“Cachorro” é Nelson Rodrigues requentado*
por Rodrigo Dourado
*Novo exercício crítico de inspiração, perigosamente, Heliodoresca.

Cachorro

Estive em Limoeiro no começo deste mês, participando do Festival Estudantil de lá, promovido pela Lionarte. Foi uma experiência maravilhosa, dias encantadores, gente hospitaleiríssima! Tivemos, entretanto, alguns embates quanto a uma certa dominação arianesca (do Suassuna) no interior do estado. Isso porque eu sou anti-arianista convicto, acho aquela dramaturgia um horror e estou certo que ela é uma chaga para nossa cultura. Monta-se Ariano por aqui porque ele é “patrimônio”, repetindo uma série de clichês e lugares-comuns sobre nossa identidade “nordestina”.

Em suas peças, as mulheres são detratadas, tudos resume-se a dinheiro e adultério – sempre feminino –, os pobres são invarialmente redimidos pelas forças divinas – mas permanecem pobres; os homens alimentam um medo atávico pela “gaia”. Enfim, o horror absoluto! Há mesmo uma fórmula para fazer Ariano: construa um cenário cheio de iluminogravuras do próprio autor ou xilogravuras de J.Borges; use como trilha músicas do Quinteto Armorial, Quarteto Romançal ou de qualquer CD de Antônio Nóbrega; muita chita nos figurinos; faça todos os personagens atuarem de maneira gritada e histérica. Pronto, temos um Suassuna ideal para gáudio dos bairristas.

É preciso dizer, porém, que isso nunca vai mudar por causa de mim; que Ariano Suassuna nunca tomará conhecimento da minha pessoa; que ele continuará sendo um “mito” independente do que eu penso; que as pessoas sempre me acharão um idiota por pensar desse jeito. Eu, no entanto, continuarei pensando assim até que se me prove o contrário. É claro que eu não desconsidero o fato de que, se alguém sente um desejo profundo, quase uterino, de montar um texto dele, é porque aquilo lhe diz algo sobre essa tal “identidade nordestina”. Meu conhecimento histórico de que o movimento armorial foi financiado pela ditadura militar, a quem interessavam as imagens do Nordeste e do nordestino articuladas pelo movimento – a infância do Brasil!, o brasileiro puro!, etc. – me fazem desconfiar dessa tal “indentidade”. Esse sou eu mesmo?, me pergunto sempre que vejo. E a resposta é sempre não, não!

Mas chega de divagações, por que afinal de contas todo esse prólogo? Porque eu cheguei a uma conclusão brilhante – super humilde - e satírica: Nelson Rodrigues é o Ariano Suassuna dos cariocas! E, curiosamente, o cara era pernambucano! Como tudo que vem do RJ ou de SP, ele é um pouco mais “nacional”, claro. Mas concluí que Nelson Rodrigues é o carma dos cariocas. Acho que numa temporada no RJ, 90% dos espetáculos são de autoria dele ou livremente inspirados nele. Ou seja, os cariocas acham que aquele é o autor que melhor articula a “identidade” fluminense. Ok, não vou discutir isso. Não tou dando conta nem da minha (des)identidade, imagina da dos outros.

Eu já me deleitei com Nelson Rodrigues inúmeras vezes. Mas acho que se criou uma tal fórmula-Nelson que me cansa: tangos, frases de efeito, adultérios, adultérios, adultérios. Achei “Cahorro”, que assisti no último domingo (23.11) dentro da programação do XI Festival Recife do Teatro Nacional, mais do mesmo, um Nelson requentado, clichê ao cubo. O mais grave de tudo é que o espetáculo é “inspirado” em Nelson, ou seja, parece uma cópia tosca do original.

Eu também estou bastante cansado do modo de atuar carioca. É uma espécie de atuação inspirada num realismo televisivo, mas que o tempo todo tenta angariar a simpatia da platéia com os recursos mais vulgares. Gracinhas de toda sorte, vícios, faniquitos, maneirismos, um inferno. Em determinados momentos, cheguei mesmo a me sentir vendo o “Zorra Total”. E não achei a menor graça.

É claro que aqueles atores, se mergulhassem num trabalho de pesquisa sem concessões, renderiam maravilhas. São muito talentosos. É claro que a direção tem idéias interessantes – o desenho de cena é inventivo, a cenografia é produtiva, etc. Mas eu travei geral desde quando a única atriz do elenco começou a fazer “gracinhas” até o momento final da fala: “boca de mulher é pra passar batom!”. É claro que eu sou um mal-humorado, é claro que Nelson era um brincalhão, é claro que não dá para levar nada daquilo a sério, é claro que os cariocas entendem mais de Nelson que eu. Mas eu me sinto no direito de rejeitar formalismos e de querer ver algo autêntico em cena. Coisa que “Cachorro” não nos oferece.

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