Shakespeare ontem e hoje:
uma pérola rara
por Wellington Júnior

A Companhia Teatro di Stravaganza está completando 20 anos em 2008 e se apresentou no Recife dentro da programação do XI Festival Recife do Teatro Nacional com o espetáculo A comédia dos erros. Nesta montagem (com direção de Adriana Mottola), o grupo resolveu atualizar as discussões sobre as questões inerentes às identidades.

A comédia dos erros de Shakespeare é considerada por vários especialistas sua primeira peça. O texto é provavelmente inspirado em duas peças do autor romano Plauto.

A comédia dos erros (Foto deVal Lima)

Na fábula inglesa, dois pares de gêmeos são separados logo na infância e vão morar em cidades distantes.

A peça se passa no dia em que a esposa de um dos gêmeos cria uma série de confusões com a desconhecida presença destes pares de irmãos agora na mesma cidade.

Shakespeare compõe seus mecanismos cômicos com a força da farsa. Mas em diversos momentos o autor contrapõe o olhar farsesco com desejos metafísicos de entender as identidades e identificações do homem.

Um exemplo dessa forma quase beckettiana de reflexão está na fala do personagem Antífolo de Siracusa:

“Quem me deixar às minhas alegrias,
Deixa-me àquilo que não posso ter;
Eu sou qual gota d’àgua no oceano
Que no oceano busca uma outra gota,
E ao mergulhar bem fundo na procura
(Ainda sempre buscando) se perdeu.
Pois também eu, buscando mãe e irmão,
Sem encontrá-los, sinto-me perdido”

Estes versos mostram-nos quase uma sensação metafísica dos clowns trágicos de Beckett.

A montagem do Stravaganza reafirma a teatralidade contemporânea do texto shakespeariano. Nela observamos uma encenação que dialoga com os procedimentos de explosão do espaço à italiana abrindo as possibilidades de jogo entre espetáculo e espectadores.

Todos os elementos do espetáculo seguem essas relações entre a tradição renascentista e a cena contemporânea. Realmente o principal elemento do espetáculo é a direção extremamente segura e elegante de Adriana Mottola, que consegue articular todos os recursos de sua escrita cênica.

O elenco responde muito bem à proposta da encenadora, mas a trupe masculina embarca muito mais do que as mulheres. Os homens estão mais soltos e sabendo tirar proveitos dos procedimentos do jogo teatral da escritura de Shakespeare/Adriana Mottola.

Destaco o excelente trabalho do ator Rodrigo Mello, que através do seu excelente domínio corporal/vocal consegue nos mostrar com exatidão seu Drômio entre suas diversas trocas de identidades.

Assistindo à montagem de A comédia dos erros, vejo como a forma de reflexão da realidade a partir da presença forte de um humor anárquico e inteligente continua sendo a marca da gaúcha Companhia Teatro di Stravaganza. E afirmo que nesta forma cênica este coletivo tem pleno domínio de sua realização com perfeição rara em nosso teatro brasileiro.      

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