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Por uma vida um pouco menos ordinária (Foto deVal Lima) |
Assisti na quinta-feira (27) ao espetáculo “Por uma vida um pouco menos ordinária”, dirigido por Gilberto Gawronski, com texto de Daniela Pereira de Carvalho, tendo no elenco: Eduardo Moscovis, Júlia Carrera e Joelson Medeiros. Antes de qualquer ponderação, vale dizer que o Teatro do Parque lotado – como nesta apresentação - é uma imagem linda. Ao contrário da freqüente visão melancólica da casa com meia dúzia de “gatos pingados”. Ai, Cristo, quem dera as pessoas dessa cidade saíssem de casa para ver os seus...
“Por uma vida um pouco menos ordinária” é um “Shopping and Fucking” carioca. O texto de Daniela Pereira de Carvalho lembra demais a escrita de Mark Ravenhill. E não é que pesquisando sobre a garota, descobri que ela fez oficina no Royal Court Theatre, a casa de espetáculos inglesa que lançou uma importante geração de dramaturgos daquele país, como Sarah Kane e o próprio Ravenhill. Essa turma, que marcou os anos 90, tinha como características principais de sua escrita a temática urbana, jovem, a abordagem de vivências e tipos marginais, o diálogo com a cultura pop, e a linguagem radical, despudorada, chocante. Um teatro que jogava e dizia as coisas na cara da platéia, sem medo, e que foi cunhado pelo crítico Aleks Sierz com o termo In-yer-face theatre.
Na montagem de “Por uma vida...”, temos a seguinte situação: Uma jovem que acaba de fechar o bar do qual era dona, lamenta-se de seu fracasso diante da vida e põe a tocar na radiola de ficha a versão de “I just don’t know what to do with myself”, by The White Stripes, para expressar seu estado sentimental. A música é mesmo o emblema da geração e o tema da dramaturgia em foco. Além dela, vemos em cena seu irmão, um músico viciado em cocaína a consumir compulsivamente a droga com um amigo policial, também totalmente adicto – para usar a expressão da nossa amiga e musa Vera Fisher.
A trama gira em torno de um tiro acidental disparado pelo músico – com a arma do policial – que acaba matando um taxista na rua. Uma bala perdida daquelas comuns no RJ. Chocada com o ocorrido, a irmã da personagem sugere que ele se entregue à polícia. Começam, então, a emergir sérios conflitos entre as três figuras. O policial – dono da arma – não quer que o caso siga adiante e assume um comportamento crescentemente agressivo. A irmã vai aos poucos descobrindo outros comportamentos reprováveis do irmão – sabe, por exemplo, que ele estuprou uma prostituta - e deseja redimi-lo, trazê-lo de volta à moral, pondo em xeque os limites entre o laço familiar que os une e a relação de amizade/dependência/opressão existente entre ele e o policial. O músico, por sua vez, está completamente viciado e, embora sinta culpa por seus feitos, não pretende assumi-los.
É evidente que essa dramaturgia tem fins moralizantes, pretende mostrar o estado degenerado ao qual leva o consumo de drogas. É claro que essa escrita também está preocupada em mostrar a promiscuidade social gerada pelo tráfico e a responsabilidade dos meros “consumidores” na escalada da violência. É claro ainda que o texto tenta explorar as reverberações no espaço privado do consumo de cocaína – e os limites morais do “viciado”. É notório que esse texto possui uma personagem – a irmã – que sinaliza para alguma possibilidade de mudança, para o fato de que nem tudo está perdido. É claro que o final da peça – o músico morre de overdose incentivado pelo policial – não cede ao happy end da regeneração, mas cede à lição fácil do: “viciado, morre!”.
E eu, definitivamente, não discuto a importância de colocar essas questões em pauta. O que me incomoda, talvez, seja o resultado formal desse trabalho – tanto na dramaturgia, quanto nas atuações. Há uma saturação do discurso sobre a violência hoje, evidentemente porque há uma saturação dela mesma. A violência carioca, do tráfico, vem sendo exaustivamente tratada pelo cinema e pela televisão. De maneira que estamos quase imunes a esse discurso, cansados, inertes. Já não nos toca tanto o “drama” dos viciados e das vítimas do tráfico. Esse discurso se converteu - fora do jornalismo - na dramaturgia televisiva e cinematográfica, num discurso quase humorístico, cômico. Não raro, estamos rindo dos “heróis” traficantes, dos assaltos e assassinatos “hilários” retratados por essa ficção.
Acho relevante colocar essas questões, porque o texto de Daniela Pereira de Carvalho situa-se dentro de uma tessitura ampla sobre violência e, acredito, acaba por não marcar diferença nesse panorama. Naturalmente, a dramaturgia e a encenação não poderiam fazer uma abordagem meramente realista da coisa – porque o cinema e a TV fazem isso com maior competência. Também não poderiam psicologizar a questão, porque trata-se de um problema público e não somente privado. Mas acredito que tanto do ponto de vista da discussão social quanto da psicologia falta aprofundamento nesse texto e nessa encenação.
As atuações são de uma superficialidade lamentável. Não têm alma, mergulho, vida interior. São de uma histeria risível, totalmente exteriorizadas, ocas, falsas, um embuste. Já o texto padece de alguns dos problemas da escrita de Aimar Labaki – apontados aqui numa outra crítica sobre “Miranda e a Cidade” -, lembrando ainda o “Entre Quatro Paredes” do Jean-Paul Sartre. Uma espécie de clausura, onde a máxima do “inferno são os outros” redunda em personagens que falam sem parar, enunciando “lições” todo o tempo. A diferença está numa humanidade real que os tipos de “Por uma vida...” carregam. São verossímeis, palpáveis, frágeis, o que assegura alguma teatralidade àquela dramaturgia.
Nesse sentido, acho importante afirmar que Daniela Pereira deve continuar aprimorando sua escrita e experimentando novos caminhos, pois vislumbramos valores em seu trabalho.
Sobre a tão festejada cenografia, acho que ela traduz, em tudo, os erros e acertos desse texto e dessa encenação. Há uma idéia de caos ali: os ambientes se misturam – praia, apartamento, bar - o trânsito entre eles é totalmente não realista, mas, no geral, há uma imagem de claustro, de ambiente fechado, de clausura. Ou seja, mesmo quando os personagens saem para o espaço público, permanece uma certa idéia do privado.
A sujeira do espaço – que traduz a sujeira daquelas vidas – é, no entanto, vitrinesca, recebeu um tratamento
pop, e me fez – por várias vezes – desejar que aquela fosse a sala da minha casa. Da mesma forma, os baldes cheios de cocaína, que despejam o pó todo tempo sobre os personagens e sobre o ambiente, refletem a saturação da qual falamos anteriormente. E nos levam a uma certa indiferença com relação ao recurso cenográfico – mesma indiferença cotidiana frente à violência.
No geral, e portanto, acho que tudo isso concorre para que a abordagem de “Por uma vida um pouco menos ordinária” beire a ingenuidade, a pieguice, deixando-nos confortáveis frente a todo aquele caos, não nos tocando, não nos “bulindo”, não nos incomodando, não nos dizendo nada novo. Ao contrário de uma escrita como a da Sarah Kane, por exemplo, que explode a forma, “dizendo” sobre a violência “de uma maneira” totalmente violenta.
Acho que o único momento em que a violência se precipitou dentro do teatro foi quando dois espectadores do fundo da platéia trocaram uns murros. Não sabíamos disso na hora e somente ouvimos alguns gritos. Todos achávamos que o teatro estava sendo invadido por bandidos. Meu coração veio à boca durante aqueles breves segundos de apreensão. Até a cena parou. Depois, voltamos à beleza de Du Moscovis. E põe beleza nisso!