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Primeiro Amor (Foto deVal Lima) |
Eu havia visto Marat Descartes somente uma vez em cena, no espetáculo “Aldeotas”, que esteve neste Festival uns anos atrás. Lá, ele dividia o palco com Gero Camilo, que era o autor do texto – uma espécie de autobiografia – e, naturalmente, ofuscava um pouco o trabalho de Descartes. Agora, chega de mansinho esse ator – numa substituição inusitada da programação – e me deixa encantado. “Primeiro Amor” ocupou o lugar que seria do espetáculo “Acqua Toffana” – que teve problemas com direitos autorais. A montagem tem direção de Georgette Fadel, texto de Samuel Beckett e foi vista nos dias 25 e 26 no Apolo.
É impressionate como, ao longo de quase 1h30, Descartes consegue com uma técnica incrível, uma presença marcante e o domínio pleno de seus recursos expressivos, defender uma personagem irascível, hilário, lamentável e absolutamente comum, com uma profundidade notável. Em cena, vê-se um homem sentado num banco, a rememorar a morte de seu pai, sua expulsão de casa, o dinheiro que herdou do progenitor, e seu encontro amoroso com Lulu, talvez a única e mais importante mulher de sua vida.
Desde o início, vislumbramos o quanto esse personagem parece conosco: na sua desesperança, no seu desinteresse pela vida, no seu ócio, nas suas pequenas irritações com coisas cotidianas, no seu desejo de que o deixem em paz. É mais uma figura clownesca do Beckett, um ser lamentável do qual rimos, rindo assim de nós mesmos, do nosso tempo de individualismos, de isolamentos, de solidão.
Daí o amor ser a questão central desse texto. O amor é necessariamente duplo, não individual, é troca, partilhamento. O conflito dessa personagem está, precisamente, no seu desejo de permanecer sozinho e na invasão que o amor representa em sua vida, fazendo desmoronarem, assim, seus planos individualistas. Essa tensão entre o não querer consciente e o querer insconsciente move essa figura.
O que vemos é um exercício cênico narrativo, no qual se apresentam apenas a personagem e suas memórias. É incrível como o trabalho de Descartes tem profundidade, alma, vida interior. Seus estados extremos de sentimento, as imagens que lhe vêm à cabeça e que ele nos faz ver, as modulações de sua voz, a economia, a limpeza, a precisão do gesto, a verdade, a honestidade, a franqueza de sua atuação me deixaram de fato comovido.
Para nós que vemos, fazemos ou ensinamos teatro – comme moi -, é muito gostoso assistir a um trabalho feito com entrega, com técnica. Eu, doentiamente, ficava o tempo todo analisando as pequenas minúcias daquele exercício, muito embora a técnica esteja ali totalmente diluída para um observador comum. Fica muito evidente o preciosismo do trabalho, a dedicação do ator, a mão delicada e sábia da diretora, o burilamento de cada movimento, de cada inflexão, a pesquisa por trás de cada escolha. Enfim, gostaria que todos os meus alunos vissem “Primeiro Amor” e assim eu ganharia uns bons dias de folga. Escolha acertadíssima de Kil Abreu, com quem eu – inacreditavelmente – ainda não troquei uma palavra ao longo desse Festival. Um abraço, Kil