Lume “butoh” pra quebrar*
por Rodrigo Dourado
*Trocadilho irresistível no melhor estilo dos cadernos culturais do Recife

Shi zen 7 cuias (Foto deVal Lima)

Antes de mais nada, é preciso dizer que ninguém suporta mais algumas apontadoras de lugar do Santa Isabel  (especialmente a que fica na platéia). Ok, elas podem ajudar um bocado, mas no geral, são grossas e mal-educadas. Curso de etiqueta e bons modos para todas já! Afinal, ninguém é obrigado a pagar por um ingresso para ser maltratado com eu vi ontem a da platéia fazer com alguns espectadores. Minha vontade foi levantar e dar um “baile”, mas me contive para manifestar meu desprezo pelo comportamento da cidadã aqui. Vavá, pelo amor de Deus, cuide disso, você que é um homem educadíssimo. Lúcia, você que é uma lady, pelo amor de Deus, assuma essas aulas de etiqueta!

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O Lume nunca havia apresentado nenhum espetáculo no Recife. Em 2006, no Seminário de Crítica realizado pela Renascer Produções Culturais, no qual palestrei, Carlos Simioni – integrante do grupo – ministrou uma aula-demonstração concorridíssima. Foi excelente. Somente agora em 2008, a curadoria do XI Festival Recife do Teatro Nacional traz, acertadamente, o espetáculo “Shi Zen 7 Cuias” para o Teatro de Santa Isabel. Assisti à apresentação da terça-feira (25.11), com o teatro, lamentavelmente, bastante vazio. É natural que de segunda a quarta-feira haja uma queda na procura por ingressos. Acho que uma boa alternativa seria pensar em trazer um outro público para esses dias: escolas, ONGs, projetos sociais, etc. Enfim, uma sugestão.

“Shi Zen 7 Cuias” estreou em 2004 e, desde então, já excusionou por várias cidades do Brasil e do mundo. O espetáculo é fruto da colaboração entre o grupo e o coreógrafo japonês Tadashi Endo, herdeiro do “Butoh” (dos bailarinos Kazuo Ohno e Tatsumi Hijikata) e criador do “Butoh-Mah”. É, de fato, um desbunde visual esse trabalho. Para quem esperava um eixo narrativo tradicional, alguma linearidade diegética, o trabalho apresenta quadros em movimento, corpos em conflito, imagens a um só tempo assustadoras e singelas, angustiantes e hilárias, delicadas e assombrosas, violentas e poéticas. E nisso está sua dramaticidade.

O “Butoh” é uma espécie de dança-teatro, criada no Japão do pós-guerra, que mistura elementos do teatro tradicional daquele país, da mímica, da pantomima, mas também do teatro, da dança e das artes ocidentais. Isso porque os bailarinos que criaram o “Butoh” viajaram pela Europa nos anos 20 e receberam grande influência do que se fazia por lá. Não há mesmo como negar, ao ver o Lume, todos os ecos do Surrealismo, mas especialmente do Expressionismo na cena. Vale lembrar que Tadashi Endo estudou na Max-Reinhard-Seminar em Viena.

O “Butoh”, cujo nome original é “Ankoku butoh” - dança das trevas, dança da escuridão – é a expressão da perplexidade japonesa diante da tragédia de Hiroshima e Nagasaki e diante da situação do mundo. Seu objetivo é superar a harmonia e a beleza da dança tradicional japonesa, ligada ao folclore, e produzir uma dança que expresse a decadência física humana, a escuridão da alma, extraindo beleza desses estados.

“Shi Zen” começa com um ator – com o corpo totalmente maquiado de branco e cabeça raspada – ao centro do palco, acompanhando lentamente a passagem de um pássaro – do qual se ouve somente o canto. Ao fundo do tablado, um outro ator rasteja em direção ao centro, como se fosse um lagarto. Essa primeira imagem já nos despeta um sentimento profundamente conflituoso, pois a beleza do gesto simbólico de apontar para um pássaro que atravessa o céu – um alumbramento com a natureza - é rompida pela bestialidade daquele ser rastejante.

Os corpos totalmente brancos, imberbes, despidos, veiculam, ao mesmo tempo, imagens angelicais, infantis, mas também sobrehumanas, sobrenaturais, espectrais. Eles nos encantam e nos assustam, nos atraem e nos repelem. Será assim ao longo de todo o espetáculo.

Outra das características do “Butoh” é a lentidão dos gestos, a decomposição dos movimentos, o que exige dos atores do Lume um trabalho de extrema concentração, um tônus muscular, uma tensão inacreditáveis. Para nós, platéia, é um deleite poder contemplar esse trabalho corporal de tanta precisão, de tanta dramaticidade – no sentido da tensão primordial que hipnotiza o olhar -, tão repulsivo e ao mesmo tempo tão atraente. Há que se dizer ainda que o branco da maquiagem veicula uma profunda melancolia e acaba por apagar a identidade dos intérpretes, ressaltando a anatomia dos corpos, mas transformando-os em não-indivíduos.

Após a cena inicial, o lagarto se transforma numa espécie de pássaro, ou ser alado, e acompanhamos, então, seu angustiante esforço pela vida. Seu desejo de colocar-se no mundo, de erguer-se, de aprumar-se. Contra ele, as limitações do próprio corpo e um vento que sopra, cuja densidade e força o trabalho do ator nos faz visualizar de maneira assustadora. O corpo se contorce em espasmos, luta contra a amplidão da natureza – até conseguir alcançar uma flauta – que o vento insiste em impedi-lo de tocar.

De posse da flauta, ele começa a executar a música “Assum Preto” (Luiz Gonzaga), enquanto o restante do elenco entra em cena. Segue-se, então, uma longa passagem em que os atores andam, correm, dançam pelo palco – quase um aquecimento -, entoando “Assum Preto” e, posteriormente, movimentando-se ao som dos batuques de um eletrizante maracatu. Sabemos, desde já, pelas escolhas musicais, e tudo mais, que esse espetáculo dialoga com uma cultura popular ancestral, traduz um ambiente rural – povoado por campônios – mas, principalmente, um ambiente em que homem e natureza se confundem, são indistintos. 

É essa dimensão humana, mas também extra-humana, da natureza e sua grandiosidade, do homem e sua pequenez, que o Butoh nos comunica. Os atores-bailarinos traduzem um corpo que é totalmente extra-cotidiano, não realista, mas animalesco, brutal, degenerado, decrépito. Mas que também pode ser hamonioso, erótico, calmo, fluido, divertido.

Sobre esses últimos estados, vale lembrar do entreato cômico em que camponeses trabalham e dançam ao mesmo tempo (capoeira, xaxado, frevo), até que uma espécie de chefe – interpretado por Simioni – chega e lhes dá uma bronca. Quando imaginamos que o sermão era motivado pela improdutividade dos trabalhadores, sabemos, na verdade, que o chefe deseja ensinar os subalternos a dançar corretamente. A cena ganha em comicidade à medida que vemos o destempero do chefe com sua dança exagerada e seu descontrole físico e psíquico.

Há ainda inúmeros outros momentos de rara beleza, como o das irmãs siamesas que, ligadas por um mesmo vestido, executam movimentos sincrônicos, leves, sutis, contínuos, simétricos, eróticos. Mas, em dado momento, entram em conflito, produzindo gestos abruptos, ríspidos, de retração. Tudo lindamente ampliado por uma sombra que projeta esses corpos e movimentos na parede, dotando-os de uma qualidade quase mitológica, em que pese a força da feminilidade dessas figuras.

À medida que o espetáculo vai chegando ao fim, o medo, o desespero, a angústia e a violência são trazidos de volta. Sob um enorme céu estrelado, vemos sete camponeses com suas cuias, que refletem a luz das constelações. Acompanhamos a colheita – numa coreografia de grande força e impacto, graças aos estados extremos de velocidade e lentidão no colher das sementes e no jogar delas ao chão. A natureza se impõe soberana, uma voz anuncia os revezes: o sol se torna frio; o mar, negro; etc. Até que o negrume da noite consome aqueles corpos, que apontam para o céu numa tentativa desesperada de enlevar-se. É uma imagem extremamente assustadora e poética, de uma beleza apavorante, um Münch em movimento.

Ai, ai, foi realmente maravilhoso ver o Lume. E o povo do Recife precisa mesmo se desvincular do texto – que coisa mais antiga! – e dessa idéia de ir ao teatro esperando uma historinha engraçada. O que o Lume nos apresenta é uma dramaturgia dos corpos, da luz, dos desenhos no espaço. Um biscoito fino para quem não gosta de acomodações mentais, como eu.

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