I Encontro do NORTEA (Salvador-BA)
por Virginia Brasil*


I Reunião do NORTEA

Hoje, 08 de setembro de 2008. Primeiro dia do primeiro encontro do NORTEA (Núcleo de Laboratórios Teatrais do Nordeste). Espaço para troca de experiências estéticas, técnicas e pedagógicas entre grupos teatrais do Nordeste, que têm a pesquisa e o trabalho continuado como premissas. Um coletivo de grupos que pretende tornar periódicos encontros como este. O NORTEA integra a programação do FILTE - Festival Latino-Americano de Teatro da Bahia, também estreando neste ano. Este duplo evento é uma iniciativa do OCO TEATRO LABORATÓRIO, que tem como diretor o cubano (mais baiano que muito soteropolitano) Luis Alberto Alonso e produção do também ator Rafael Magalhães, que estiveram no Recife ano passado, por ocasião do I Intercâmbio Labô-Espetáculo em Antropologia Teatral, onde ministraram duas oficinas e apresentaram o Espetáculo BRANCA (Adaptação da obra de Dias Gomes - O Santo Inquérito). Esta foi a primeira oportunidade de explanação da idéia do Núcleo, numa conversa ocorrida no Sesc Casa Amarela, com a presença de integrantes do OCO, Labô e do Prof. Marcondes de Lima, também integrante do Coletivo Angu de Teatro e do Mão Molenga, ambos grupos de pesquisa de linguagem atuantes no Recife.

Iniciamos o dia, pela manhã, com uma conversa onde nos apresentamos e falamos sobre nossas motivações em participar do encontro. Passamos nosso roteiro de atividades para a semana e ficamos de nos encontrar à tarde, onde acompanharíamos as demonstrações de trabalho do Magiluth (PE) e do Grupo Bagaceira (CE). À tarde, saímos do hotel em passeata pelas ruas de Salvador em direção ao Espaço Xisto, que fica na Biblioteca do Barris e que abrigará todo o encontro.

O Magiluth (PE) nos apresentou seu percurso desde sua formação até suas atuais descobertas e atuações. O grupo, formado a partir do encontro de alunos da UFPE, para realização de um exercício de cena para a disciplina FEC (Fundamentos da Expressão e Comunicação), ministrada pelo Prof. Paulo Michelotto, a partir da obra de Samuel Beckett (ATO SEM PALAVRA) há quatro anos. Atua no meio profissional há cerca de dois anos e meio com o espetáculo CORRA. Entre suas experiências de formação, destacaram o fato de serem todos os integrantes ligados à Universidade Federal de Pernambuco, a viagem de dois deles à Portugal através do programa de mobilidade da UFPE, onde permaneceram pelo período de um ano. Ao voltarem, o trabalho, que não havia parado, pois outros integrantes deram continuidade, foi acrescentado das novas visões adquiridas. Voltaram para a primeira experiência montando o espetáculo ATO, mais recente da cia.

É relevante ressaltar a forma auto-sustentável de sobrevivência em que convivem, fazendo com que o agrupamento de interesses diversos de seus componentes viabilize sua existência, posto que as funções técnicas de suas montagens são exercidas internamente a partir de pesquisas de interesse de cada um. Ou seja, um desenvolve uma pesquisa de iluminação que é praticada no grupo, outro de direção, outro de dramaturgia, outro de cenografia, outro de figurino.

É notória e assumida a falta de uma unidade, uma linguagem única, porém é sabido e observado facilmente a busca de um caminho comum. Vê-se claramente um movimento de experimentações e experiências no sentido de alcançar esta autonomia técnico-teórica.

Após um coffee-break retomamos os trabalhos com o Grupo Bagaceira (CE), que nos agraciou com uma troca prática de um exercício aplicado pelo grupo. Alguns voluntários foram excelentemente conduzidos por dois membros do grupo, que nos fizeram caminhar pela sala e aos poucos foram acrescentado elementos ao trabalho, sons, objetos, inter-relação. Alguns princípios da Pré-Expressividade (BARBA/SAVARESE) estavam claramente presentes, precisão, equilíbrio precário, alongamento, sat (ver A Arte Secreta do Ator - Dicionário de Antropologia Teatral).

Nos debates, estava fortemente presente as dificuldades semelhantes em manter um grupo de pesquisa e, como não poderia deixar de ser, uma parcela de nosso tempo serviu para desabafarmos nossas situações específicas. Presentes no encontro artistas do Equador do grupo Callejón Del Agua, relataram similar situação, onde cada integrante do grupo cuida de seu próprio sustento de maneira individual para se dar ao deleite de preservar sua participação no coletivo.

Termino o dia constatando que um agrupamento de artistas de teatro, que trabalha de maneira não comercial, mantendo a perspectiva de continuidade, formação e criação de linguagem, com o agravante de suas localizações geográficas, pois como disse Luis Alonso “A América-Latina esta para o resto do mundo assim como o Nordeste está para o Brasil”, é, necessariamente, embora não seja intencional, uma atitude política, militante. E não devemos nunca perder esta realidade de vista.
         
Aguardem as notícias do segundo dia onde teremos a troca com o TOTEM (PE) e o Labô-Espetáculo (PE) e ainda demonstração de trabalho com Carlos Simione, do LUME (Campinas-SP) e uma conferência com Juliana Ferrari, diretora do grupo Gente-De-Fora-Vem (BA)

*Atriz/pesquisadora do Grupo Labô-Espetáculo
www.laboespetaculo.blogspot.com

PRESENTES NO DIA DE HOJE:

Grupo Bagaceira (CE)
Grupo TOTEM (PE)
Grupo Labô-Espetáculo (PE)
Grupo Magiluth (PE)
Grupo OCO Teatro Laboratório
Grupo Gente-De-Fora-Vem (BA)
Grupo Callejón Del Agua (PERU)

e
                                                 
Miguel Rubio
Teresa Ralli
do Yuyachkani (PERU)