Foi Carmen: quem inventou o Brasil?*
por Rodrigo Dourado, jornalista, editor-geral do TeatroPE e mestre em comunicação há 15 dias.
Eu fui à coletiva de Antunes na quinta-feira pela manhã. Achei ele um fofo: humilde, simpático, tudo! Também fiquei passado porque ele não aparenta 80 anos de jeito nenhum! Ai, Natura, me ajuda com isso! Bom, ele deixou claro, na entrevista, que o espetáculo “Foi Carmem” é uma experiência poética, de dilatação do tempo, de apreciação lenta. Sugeriu, inclusive, que lêssemos Pessoa ou Drummond antes de ir ao teatro. Eu não o fiz, mas ainda assim, gostei do que vi.
Saindo do teatro, fui ao bar com alguns conhecidos, inclusive uma italiana amiga de uma amiga, e, para minha surpresa, a gringa nunca tinha ouvido hablar de Carmen Miranda. Eu fiquei passado mais uma vez, porque La Miranda (isso eu soube pela Wikipédia, tá...) foi a artista mais bem paga de Hollywood na década de 40 e nós, brasileiros, sempre achamos que as pessoas são obrigadas a saber quem foi a Pequena Notável e Pelé.
Estou contextualizando isso porque o espetáculo de Antunes Filho fala precisamente da tal identidade brasileira, personificada nessas figuras, e definida através de outros símbolos como o carnaval e o samba, que fazem parte de um patrimônio nosso (construído a partir das escolhas e do poder de alguém, obviamente). Esse patrimônio garante nosso sentimento de pertença a um grupo, são os arquétipos que constituem nossa subjetividade. Assim, na medida em que nos dizemos brasileiros, devemos grande parte dessa identidade ao “tico-tico no fubá”.
Esses símbolos, mesmo estando para lá de gastos, pertencem a um patrimônio afetivo e, embora muitas vezes sejamos tentados a rejeitá-los por não corresponderem absolutamente à verdade, – imagina se o Brasil é só bananas e samba! – são sempre invocados e sempre nos fazem chorar e dizer “good be home”. Falo isso com conhecimento de causa porque sempre que ouço um frevo fora de Pernambuco, meus olhos começam a marejar.
O que é que Antunes faz, então? Ele usa a figura de Carmen Miranda – essa super drag queen – para expor a tensão primordial da identidade brasileira: de um lado o carnaval como símbolo máximo de nossa tropicalidade, de nossa alegria, de nossa festa; do outro, a melancolia, a tristeza, a desesperança de um país notoriamente fracassado. A sensação que eu tenho é que Antunes quer nos dizer que estamos condenados à alegria. E que a identidade é exatamente isso, uma máscara que esconde ou disfarça ou impede a emergência de nossas verdades.
Lendo a biografia da Carmen é curioso notar como ela carregou no próprio corpo o paradoxo da nossa identidade. Foi construída pelos americanos, passou 14 anos sem pisar no Brasil por conta de seus compromissos com Hollywood e teve de ingerir barbitúricos durante boa parte da carreira nos EUA para conseguir dar conta de sua agenda de shows. Barbitúricos + outras drogas + cigarro + álcool + solidão levaram-na à morte aos 46 anos. Devia ser uma figura triste.
“Foi Carmen” é, na verdade, um experimento de dança-teatro, uma homenagem a Kazuo Ohno, criador do Butoh. O espetáculo não possui um eixo narrativo tradicional – mais uma vez decepcionando a platéia recifense – mas rascunha pequenos esboços diegéticos. Vemos por exemplo uma pequena garota que sonha cantar como Carmen, ouvindo suas performances na rádio. Outras duas bailarinas – paramentadas como La Miranda – que vão aos poucos decompondo os movimentos do samba. E um Malandro que conta em “fonemol” – língua criada pelo intérprete – a história da pequena notável.
Ao longo do espetáculo – de apenas 45 ou 50 min – ouvimos algumas das mais célebres canções interpretadas por Carmen e vemos alguns dos apetrechos de sua indumentária como cachos de banana, plataformas e colares, serem espalhados pelo tablado. A noção de uma identidade fabricada através de próteses e suplementos está profundamente ligada à figura de Carmen Miranda. Nesse sentido, a montagem de Antunes decompõe a identidade da Pequena Notável, contando sua história através desses vestígios materiais.
Talvez um dos momentos mais bonitos de “Foi Carmen” seja aquele em que o Malandro, depois de passear pelos diversos acessórios e pela trajetória da intérprete, arrisca experimentar as plataformas da Pequena, a fim de aprender a sambar como ela. Como se aquele par de sapatos sintetizasse a identidade brasileira – em seu brilho tropical e em sua promessa de garantir a ginga local a quem o calçar.
Mas é um samba, no mínimo, desajeitado que o malandro apresenta. Porque como no Butoh, o Brasil de Carmen Miranda e de Antunes Filho é belo e harmônico, mas também grotesco e desengonçado; é festivo, porém melancólico; é colorido, no entanto pálido. A imagem de um das Carmens com uma espécie de lenço preto a cobrir-lhe o rosto me remeteu às figuras de Magritte, mas também a essa identidade permanentemente revestida por um véu.
Identidade que mesmo que julguemos descoberta, jamais revelará sua verdadeira face. E é um pouco dessa brasilidade ambivalente e sempre por descobrir que Antunes nos fala ao misturar Carmen e o Butoh.
*Crítica rascunhada ainda fora dos padrões da nova reforma ortográfica, porque o crítico teve preguiça de estudá-la.
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