Grupo Cenart Piedade: Procedimentos e trajetória na cena jaboatonense
por Alvaro Heleno

Elenco de Porque contamos estórias

Incentivado pelo movimento de teatro de Jaboatão dos Guararapes, nos idos de 2002, através da Mosteja (Mostra de Teatro de Jaboatão dos Guararapes) e contando com o apoio didático do Sesc Piedade, surgiram as possibilidades de organizarmos um grupo que pudesse desenvolver um trabalho voltado para a criação, manutenção e desenvolvimento de oficinas periódicas das práticas teatrais. Assim surgiu o Cenart Piedade – Grupo de Teatro Arte em Cena Produções.

O momento histórico do movimento teatral de nossa cidade

A criação do projeto Abrindo as Cortinas, executado pelo Sesc Piedade, foi um passo decisivo para a retomada e o aquecimento das atividades na área, promovendo a aproximação dos grupos atuantes (dos bairros de Jaboatão Centro e Prazeres). O ressurgimento das atividades organizadas pela Feteape (na gestão do presidente Roberto Carlos), abrindo espaço na região metropolitana, aumentou ainda mais as atividades de intercâmbio entre os grupos teatrais.

A partir de então, os grupos jaboatonenses passaram a desenvolver trabalhos já apoiados em orientação de pessoas com uma trajetória mais experiente, vindas de outros lugares fora de Jaboatão, e ficou evidente o crescimento da qualidade de trabalho, abrindo caminho para alguns grupos chegarem a colocar suas montagens nos palcos de Recife (grupos como o Naja – Núcleo de Artes de Jaboatão – que chegou a realizar várias temporadas no Recife com seu espetáculo O noviço, com direção de Geraldo Dias).

Conseguimos ainda apoio da administração do Teatro Artplex (localizado no Shopping Guararapes – lembremos que Jaboatão foi a primeira cidade do Norte-Nordeste a possuir um teatro dentro de um Shopping); quando foi possível a criação do projeto Terças de Teatro, realizado neste teatro, e passamos a contar com uma pauta semanal para a apresentação de nossos trabalhos. Aquele foi um ótimo momento!

Outro momento chave da história teatral em nossa cidade foi o surgimento da Mosteja. A organização de uma mostra de teatro aqui no Jaboatão, infelizmente, sempre careceu de atenção das autoridades. Tivéssemos a sorte de um olhar de carinho e boa vontade, certamente estaríamos hoje com um teatro público em nossa comunidade. São os esforços de alguns militantes nas artes cênicas, que mantêm ainda viva a chama de nossa Mosteja; sem poder deixar de registrar o fundamental apoio do Sesc Piedade (em especial na pessoa de seu gerente – Rudimar Constâncio – e de seus técnicos).

Agora vivemos um momento difícil em nossa cidade. Fecharam-se as portas definitivamente da sala do Artplex em 2007 e ficamos sem este apoio e esta alternativa. Alguns grupos estão assustados. Mas não podemos perder as esperanças. Na verdade, nunca tivemos um espaço público para a realização de uma pesquisa teatral continuada.  Nossos administradores não tiveram “tempo” ainda para disponibilizarem um espaço digno para artes em geral em nossa municipalidade.

Falando de “nós, Cenart”

Somos todos engajados nas artes cênicas. Alguns cursando licenciatura em educação artística na UFPE; outros participando de cursos regulares e/ou oficinas em nossa cidade; outros com experiências teatrais em grupos profissionais do Recife; formamos assim um grande grupo onde o intercâmbio de experiências é de fundamental importância para os nossos trabalhos. Somos abertos àqueles interessados num trabalho continuado de pesquisa teatral.

Desde 2002, o grupo produz dramaturgia própria (seja coletiva ou de um dos integrantes do grupo), interessada na realidade histórica do país bem como na crítica política das formas estéticas de representação. Nossas montagens são "peças-processo" sobre movimentos contraditórios de uma sociedade imersa nas determinações do capitalismo mundial.

O caráter processual faz com que cada espetáculo do Cenart não se insira no sistema produtivo como um "produto acabado", mas antes como matéria formativa, em constante transformação, aberta à interferência crítica do público. Os espetáculos do grupo procuram evidenciar sua construção por um jogo teatral claro, com regras expostas. Trabalhamos com a relação direta entre atores e público, de uma forma anti-ilusionista, desprovida de maiores efeitos cenográficos. O espaço da ficção depende da colaboração imaginária do espectador, é construído como experiência compartilhada.

Os principais trabalhos do Cenart foram:

1) O homem com a flor na boca (2002) – com texto de Pirandello e direção de Álvaro Heleno, foi nosso único trabalho sem uma dramaturgia própria.

2) Porque contamos estórias (2002) – texto e direção de Álvaro Heleno, esse espetáculo circulou por diversas regiões do estado, além de ter participado do projeto Todos Verão Teatro, realizado pela Feteape. Nesse processo de trabalho, começamos nossa busca por uma cena teatral dialética e narrativa. O espetáculo foi ganhador de diversos prêmios na Mosteja.

3) Casamento instável sujeito a chuvas e trovoadas (2005) – Texto de Marcos Pacheco e Álvaro Heleno, direção de Álvaro Heleno; nessa montagem, o grupo instalou um nova área de pesquisa em nossa trajetória – o cômico e a cena dialética.

4) Perfis (2006) – Criação coletiva, com dramaturgismo e direção de Álvaro Heleno. A partir dessa montagem, temos trilhado um caminho de pesquisa sobre a construção coletiva da dramaturgia. Nesse espetáculo, os atores construíram as estórias de suas cenas. A montagem foi ganhadora na categoria de melhor espetáculo na Mosteja.

5) Exercícius (2007) – Criação coletiva, com dramaturgismo e direção de Álvaro Heleno. Esse é nosso espetáculo mais recente. Aqui continuamos nossa procura por uma cena teatral coletiva, onde os procedimentos do ensemble sejam determinantes.

Quando da escolha dos temas propostos em nossos textos, priorizamos aqueles com conteúdo de agente formador de novas idéias, ajudando a esclarecer conceitos e formar opiniões, proporcionando, ainda ao público, a oportunidade de melhor apreender o seu momento histórico. O trabalho do Grupo Cenart - Grupo de Teatro Arte em Cena Produções é uma mostra viva da possibilidade de utilização contemporânea do pensamento de Marx e Engels como ferramenta estética.

Para finalizar (voltando a falar de todos – nossa cidade e o grupo)

Há alguns anos, fizemos uma tentativa para consolidar o sonho de uma associação que representasse a “classe”, e tivesse uma força representativa junto às autoridades para cobrar uma atenção maior e um apoio efetivo ao movimento de teatro do município. Apesar do empenho e da força de vontade de alguns, fomos vencidos pelo silêncio da maioria que na época não tomou uma atitude definida e corajosa para fazer valer a força de um movimento.

Atualmente, a Astej (Associação de Teatro de Jaboatão dos Guararapes) ressurgiu sob a presidência de J. Andrade (um dos pioneiros dessa nova fase de lutas), e conseguiu tornar nossa associação uma realidade jurídica, abrindo novos caminhos aos sonhos de futuras realizações. Temos pela frente inúmeras batalhas a vencer e precisamos do apoio e participação dos grupos que realmente desejam tornar nosso movimento uma realidade próxima. Contamos com todos participando com coragem e trabalho.

Nosso Cenart faz parte dessa luta por movimento forte de grupo em nossa cidade, que irá fortalecer a pesquisa teatral em nosso estado.

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