Coletivo Angu
por Marcondes Lima
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Gheuza Sena num dos quadros de Angu de sangue |
Há quem ainda acredite e alardeie, pela cidade do Recife, que não somos verdadeiramente um grupo. Talvez por ignorarem que as primeiras sementes do nosso projeto cênico tenham sido lançadas, já com esse espírito gregário, nos primeiros momentos do Século XXI, quando descobrimos, entre muitas afinidades, mais um bom motivo para caminharmos e crescermos juntos: conceber e realizar um espetáculo, movidos pelas inquietações causadas pela escrita desconcertante do contista pernambucano Marcelino Freire. A matéria prima seria Angu de Sangue, o primeiro de seus livros a ser publicado por uma editora, em 2000. Seguramente podemos dizer que preparar um Angu com o nosso sangue, cara e impressões digitais, foi o que serviu de liga para fortificar nosso ser coletivo. Isso ocorreu paulatinamente, sem alarde nem grandes pretensões. Do Angu surgiu tudo e, em torno dele, esse todo deu e continua a dar voltas, em muitos sentidos.
Os primeiros a namorar a idéia de encenar alguns contos do citado livro foram André Brasileiro, João Lima (que preferiu fazer outras viagens e abandonou nosso barco pouco antes da estréia) e Marcondes Lima, isso entre 2000 e 2001. Durante outro par de anos, fomos construindo um projeto artístico no qual viriam a ser definidos e vivenciados o que hoje são, claramente, os princípios filosóficos do grupo: coletivizar o fazer teatral; explorar as potencialidades do ator, de modo a garantir sua autonomia/autoria em cena; trilhar pelo caminho do chamado teatro pós-dramatúrgico; investigar as possibilidades de cruzamento estético entre diferentes linguagens artísticas; correr riscos ao cruzar limites e fronteiras, sem preconceitos de gênero, número, grau ou de qualquer natureza; apostar no ineditismo cênico de textos originalmente não escritos para teatro e/ou que nutriam hibridizações estilísticas; trabalhar preferencialmente com autores pernambucanos que problematizem questões contemporâneas, pertinentes à realidade brasileira; fugir do lugar comum dos estereótipos e mitificações do nordeste; exercitar, através da arte, um discurso ideológico/político apartidário e não panfletário; agregar e valorizar novos e múltiplos talentos. Na gênese do Angu, como em tudo, o princípio era, e continua sendo, o verbo. Melhor falando, foram vários os verbos arrolados no desenho de nossas ações: ler, desejar, sonhar, conversar, compartilhar, planejar, escolher, ralar, espremer, misturar, criar, experimentar, testar potencialidades, encarar novos e velhos desafios.
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André Brasileiro em Angu de Sangue |
Lá pela metade de 2003, André e Marcondes finalmente tiveram condições reais para colocar a mão na massa e fazer a moenda girar. Então foram chegando à cozinha outros atores-compositores-produtores, para engrossar o caldo. Cada um com seus temperos, utensílios e apetrechos de subjetividades, experiências particulares, talentos próprios. Todos guiados por afinidades eletivas. Apareceram Arilson Lopes (que não pôde se jogar de imediato no preparo de nosso quitute – ficou salivando na reserva, por um bom tempo), Fábio Caio, Gheuza Sena, Hermila Guedes e Ivo Barreto. Na segunda jornada, chamada Ópera, é que vieram Vavá Paulino e Tatto Medini.
Foi fácil ficar apaixonado pela prosa liricamente dramática de Marcelino. Difícil mesmo foi escolher entre suas postas sanguinolentas quais as que seriam expostas em cena. Saídos de duas publicações, nove contos foram parar inteiros no palco, sem nenhuma adaptação, seu nenhum corte de vírgulas, pontos, palavras ou parágrafos. Inicialmente seriam encenadas apenas sete de suas narrativas. Da obra já citada anteriormente, que nos deu o título do espetáculo e também o nome de batismo para nosso Coletivo, foram pinçados: Faz de Conta que Não Foi Nada, Muribeca, Volte Outro Dia, O Caso da Menina, Angu de Sangue, The End e Socorrinho. Mas eis que, no primeiro encontro da equipe com o autor, ele nos apresenta novos personagens. Então, do livro Balé Ralé, surgiram mais dois “vexames” (é assim que o autor denomina os falatórios de suas crias): Darluz e A Volta de Carmem Miranda. Com dificuldade demos por completa a conta cabalística e tocamos o barco pra frente.
A primeira criação do Coletivo Angu foi servida no palco do Teatro Hermilo Borba Filho, em março de 2004, após aproximadamente três anos de premeditação e mais de seis meses de ensaio. O texto de Marcelino Freire, a direção de Marcondes Lima e o desempenho dos atores, obtiveram ótima receptividade de público e crítica local. Angu de Sangue ficou em cartaz, por pouco tempo, no Hermilo, para voltar ao Recife somente em 2006, em curta temporada, no palco do Teatro Apolo. Ainda em 2004, no segundo semestre, o grupo foi contemplado pela Caravana Funarte de Circulação, percorrendo algumas cidades dos estados do Ceará, Rio Grande do Norte e Bahia. A convivência se intensificou e com ela percebeu-se que, para continuar o jogo, teríamos que assumir nossa condição de grupo.
Ao longo do ano em que estreamos Angu, o espetáculo participou do Festival de Inverno de Garanhuns (PE), Circuito do Frio (Triunfo/PE), Festival Nordestino de Teatro de Guaramiranga (CE) e FENARTE (PB). No ano seguinte, nos apresentamos no Festival Janeiro de Grandes Espetáculos (PE), no Festival Vida e Arte (CE) e no Festival de Campina Grande (PB). E foi crescendo o reconhecimento e valorização de nosso trabalho. Em Guaramiranga, recebemos os prêmios de Melhor Espetáculo (júri popular), Melhor Ator Coadjuvante (Fábio Caio) e Melhor Atriz Coadjuvante (Hermila Guedes). No Janeiro de Grandes Espetáculos, aqui em Recife, conquistamos Melhor Espetáculo, Melhor Direção, Melhor iluminação (Jathyles Miranda) e Melhor Ator (Fábio Caio).
Trabalhar com a prosa de Marcelino provocou uma reação em cadeia em nossa elaboração conceitual. Para ilustrar o “espírito angu de sangue” que nos tomou, é preciso esclarecer que, desde o primeiro momento, além dos contos, as ilustrações (assinadas por Jobalo, artista plástico pernambucano que agora vive em Milão) e o projeto gráfico da publicação (assinado por Silvana Zandomeni) foram seminais para nós. Eles nos indicaram, entre outras coisas, o caminho para o visual do espetáculo homônimo e a vontade de estabelecer um diálogo mais intenso com as artes visuais – dessa proposição vieram o ar performático da atuação e o caráter instalacional da cenografia - coisas que continuamos a perseguir até hoje. Outro exemplo? Da dedicatória do livro, feita ao ator Roberto de França, o Pernalonga (que sangrou até a morte, após levar uma facada na perna, sem receber o devido socorro de vizinhos, policiais e bombeiros que supostamente temiam contrair o vírus da AIDS, com o qual convivera por treze anos) veio o argumento para o único quadro do espetáculo que não foi escrito por Marcelino. Imaginar o vídeo Perna, roteirizado por Carla Denise, abriu o caminho para a entrada da vídeo-arte na história. Então compareceu ao “angu de idéias” um casal de videastas: Tuca Siqueira e Oscar Malta, trazendo uma bagagem imagética para cada cena. Marcelino afirma que se amarra na musicalidade da fala de seus personagens, então, porque não transformar um conto numa canção? Assim, entrou na roda mais um de nossos parceiros: Henrique Macedo, que compôs Socorrinho e, junto com Carla Denise, criou mais quatro canções. Pusemos música sobre um prato potencialmente indigesto, não para torná-lo mais palatável, mas para acentuar a fluidez e as tensões entre as cenas.
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Ivo Barreto e Hermila Guedes em Angu de sangue |
O jogo do contém está contido que Marcelino faz com as palavras - s-angu-e, Dar-luz – faz parte do seu “atentado poético” e isso atirou na nossa cara inúmeras possibilidades. Uma dedicatória nos levou à Perna (nossa pré-Ópera) que vem da morte de Pernalonga que, por sua vez, nos lembrou o Vivencial Diversones, do qual era membro, que nos chegou também através da atmosfera homoerótica que permeia Balé Ralé. A crítica de alguém, questionando a presença em cena do gay reacionário, tirado de um “balé ralé” e apresentado em A Volta de Carmem Miranda, nos fez pensar e escolher o mote para a próxima encenação. Para esse olhar crítico, a referida cena parecia deslocada no Angu e não passava de uma “pinta” do ator e do diretor. Isso nos motivou a olhar para os “velhos pensamentos tortos” e dar “A Pinta”. Levou-nos a falar de morte, sexo e amor entre homens, em Ópera, que é uma homenagem/citação (dessa vez direta) ao Vivencial – referência fundamental para a concepção visual e estruturação dramatúrgica do referido espetáculo. Essa é a lógica da coerência interna na/da nossa criação. Isso é o que fortalece nossa identidade grupal: dar continuidade, descobrir e explorar as elações e intersecções no campo das idéias e das formas que surgem no Coletivo.
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