Um Byron com nariz de palhaço e doses a mais, bem a mais, de absinto
por Marconi Bispo*

Eu juro que nos primeiros dez minutos de peça me bateu um grande arrependimento de ter saído de casa para ver Adubo ou a Sutil Arte de Escoar pelo Ralo. Juro que fiquei tomado daquele constrangimento de estar diante de uma obra que só vai lhe entediar e mais nada. Pensei nas coisas que eu tinha para ler, acumuladas e prontas para me receber numa noite fria de inverno. É uma peça que começa mal: atores cheios de excessos, maquiados à moda daquelas intervenções de terror que grassam em parques de diversão.  

Estamos numa taverna. Quatro bêbados jogam conversa fora e dentro desta conversa o que havia de mais comum numa taverna do período Romântico cheirando a Álvares de Azevedo e Lord Byron – o assombro da morte. Pensei com meus botões: será que vou passar uma hora e meia da minha vida escutando o mais-do-mesmo-da-filosofia-existencial própria deste período? Juro que pedi a morte.  

Como num passe de mágica, bem urdido internamente por aqueles clowns desesperados, começa uma cena onde um homem tenta um suicídio, no que é prontamente ajudado pelo velho diabinho. Uma cena deliciosa que vai desmontando todas as minhas certezas e me colocando diante da ironia e acidez que iriam dali para a frente pontuar toda a encenação dos meninos da Confraria Teatral Adubo/Tucan - Teatro Universitário Candango, dirigidos por Hugo Rodas, teleguiados por um monte de mortos ilustres.  

De resolução formal interessantíssima – enquanto o ator faz de conta, deitado no chão, que está na beira do precipício, uma atriz desenha num grande quadro negro as pontas do dedo do dito cujo e vai apagando um a um enquanto a cena se desenrola, esta unidade me trouxe para dentro do espetáculo com a mesma força que eu tinha me afastado dele. Um jogo inteligente da trupe. Perigoso, todavia. Mas a alegria que se sobrepuja a tristeza é muito mais eficaz. E o que vi, a partir deste ponto, foi uma sucessão de episódios que em nada lembravam aqueles dez primeiros minutos de espetáculos, ao mesmo tempo em que eram fruto e desalinho destes momentos iniciais.  

Este sobre-encanto que a peça provoca é fundamental para embarcamos no seu ponto sensível, no seu cerne. A gente se diverte e se encanta com aquilo que ignoramos e rechaçamos. É como se fosse alguém que sempre desprezamos na vida e um certo dia percebemos o quanto esta pessoa é bela. Percebi tempos depois que eles eram bons atores, que aquela dramaturgia era de uma precisão impressionante e percebi que a morte não podia ser ignorada, talvez o que tivesse feito eu me desligar da peça já no início. A bem da verdade, a gente não quer falar sobre isso. Morrer parece ser bem chato. 

Os quatro atores (André Araújo, Pedro Martins, Rosanna Viegas e Abaetê Queiroz) se revelam excelentes intérpretes, realizando aquilo que sempre costumo pensar sobre espetáculos que se fundam nos ditames do teatro épico. Os personagens apresentam conflitos claros, são construídos na sua totalidade, inteiros, realisticamente. O que sobrevém a isto é que é também maravilhoso: a capacidade de manipular esta construção, desconstruindo-a ao bel prazer dos episódios. E estes são polifônicos, policromáticos. Vão de raps inspirados em Nietzsche a narrativas como a de um cachorro que já morreu.  

Rosanna Viegas, só para dar um exemplo, faz uma matriarca-sertaneja-mulher-macho, de arrepiar. Aquela que decapta o filho traidor. Cenas antes faz a bailarina paralítica que jaz no oceano e narra seu desejo por um fim aquático e menos eclesiástico. Não quer sair do fundo do oceano para ter um sepultamento cá em cima. Uma das mais belas cenas do espetáculo, tocante, bem arregimentada. Um texto ferino como uma baioneta.  

De quem é o texto? Da própria atriz. Outro ponto positivo da encenação. Textos surgidos no processo e que são usados no espetáculo com a mesma beleza e poder de obras de autores já consagrados. Equilíbrio de uma narrativa que modula positivamente as atmosferas, as pequenas tramas, os diversos desdobramentos que o tema permite. Não nos cansa mais, depois de passarmos por aquela linha que divide a apatia da surpresa. 

O quadro negro e o constante movimento de rabiscar e apagar é uma bela metáfora para falar do binômio onde se situa a peça. Simples e denunciador de que não precisamos de muito para erigir universos. Tava tudo ali, dizendo que nos apagaremos da existência como a professora apagava as lições do quadro. Ou dizendo que é muito fácil deixar de viver. É o tipo de espetáculo, esse Adubo, que nos remexe a alma a partir do diafragma, a partir do riso. Vamos rindo, vamos rindo e nem nos damos conta que estamos falando daquilo que tememos tanto.  

E voltamos para casa felizes (?) porque vimos o que há de melhor no teatro: bons atores conscientes do seu poder de manipular almas. A minha fora manipulada e eu nem mais lembrei do que tinha para ler naquela noite fria de inverno. Só lembrei de um trecho do livro “Um sopro de vida”, de Clarice Lispector, um dos quais estou enlaçado por esses dias. Diz assim:  

“O que me separa do mundo é a minha futura morte. A morte será o meu maior acontecimento individual: a pessoa se despe de si mesma para morrer sozinha de si. A morte é uma atitude bíblica. E é sem história discursiva: ela é um instante. Morrer-se de uma vez só. A parada do coração não dura nada. É a mais ínfima fração de um segundo.”

 

*** 



1.Só teve um pontinho negativo naquela noite. Uma máquina fotográfica insistente. Sem flash, mas com um barulho tremendo. Naquele teatro tão íntimo, naquela peça cheia de sutilezas, de silêncios, uma intervenção como aquela pode ser, e foi, uma interdição para a fantasia. Até entendo o desejo de registrar o efêmero. Mas isso não pode afrontar o nosso embarque. A fotógrafa era da própria companhia. 

2. Me pediram muito para que na crítica que fiz sobre o “Besouro Cordão-de-Ouro” tocar no incidente da chuva dentro do Armazém 14. De fato, caros leitores, confesso que no momento da escrita este fato passou batido por minha cabeça. Ainda mais diante do que é João das Neves, diante daquelas músicas. Depois percebi que talvez tivesse sido melhor não tocar mais neste aspecto. Seria chover no molhado. Não dá mais para resolvermos as coisas assim, passando um pano para enxugar um pranto que já corre torrente há tempos.  
 

*Ator, encenador, professor de teatro e músico. Para críticas da crítica, sugestões, perguntas e, de repente, elogios, mandar e-mail para marconibispo@hotmail.com ou para os editores do site.

 

Comente a matéria:


Comentar esta Enquete