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Recife teve uma feliz oportunidade de receber um espetáculo dirigido por João das Neves, um dos pilares do nosso teatro engajado, responsável por obras memoráveis, que sacodem a nossa memória por vezes carcomida. Fica difícil enumerar seus feitos, isto seria matéria para este e muitos outros textos. Meu interesse é que o leitor que entre em contato com essas linhas tente, também, entrar em contato com as linhas tecidas por João das Neves. É um tecido que vai se revelar como fundamental para entender a trajetória de um teatro enraizado nos nossos conflitos sociais, um teatro que reverbera brasis. |
Besouro cordão de ouro |
Ladeando-o temos Paulo César Pinheiro, uma das mais importantes figuras da música brasileira, compositor majestoso, sedimento para carreira de grandes intérpretes do nosso cenário musical, que responde pelas músicas e texto deste Besouro Cordão de Ouro, apresentado no último dia 21, lá no Armazém 14. É um enlaçamento ímpar, como tantos outros que o João das Neves já realizou: Vianinha, Ferreira Gular, Chico Buarque, Zé Kéti, são alguns dos nomes que constam em seu diário teatral.
Estamos num espetáculo que conta a trajetória de Manuel Henrique Pereira, o Besouro Cordão-de-Ouro, capoeirista baiano conhecido por sua valentia, pela sua capacidade de manipular as forças da natureza, bichos peçonhentos, ervas, conhecido pelo seu corpo fechado à maldade, às artimanhas do inimigo. É, estamos diante de um homem com um pé no divino. Precisamos revolver nossa memória mitológica, reencontrar nossos heróis, homens que transformam poros em olhos e por isso antevêem perigos, se protegem de forma especial. É uma condição a mais na condição usual de ser humano. É um anteparo, um suplemento sagrado. É assim que encontramos o Besouro-Mangangá. E olha que ao entrarmos no teatro ele está num esquife*, morto. Bebemos, inclusive, uma cachaça em homenagem a ele. Uma outra olhada na ante-sala do Armazém 14 e vamos encontrar uma atriz corporificando Oyá, ou Iansã, presença que não só ratifica o culto a uma pessoa já morta, porém, o mais importante: determina a plataforma onde se situa o candomblé, esta condição de circularidade da existência, a morte que se alimenta do que é vivo, a vida que se alimenta do que já morreu. Ser filho de Iemanjá, como eu sou, significa manter viva uma energia gerada em Abeocutá, região específica da África, trazida ao Brasil pelos nossos ancestrais. Ser filho de um orixá é alimentar um elo, permanecer atento a uma ligação cabal com o passado e é isso que Iansã evoca com sua presença ali, já que é este orixá que nos transporta ao espaço sagrado na hora de nossa morte. É ela quem indica o caminho para aquela alma que acabou de se desprender do corpo, pois, diferente da grande maioria dos Orixás, ela não tem medo dos mortos, ela os recebe. Os nossos espíritos ancestrais, os eguns, são companheiros de Oyá. Por isso que a ela devemos todo nosso respeito e é por isso que ela é onipresente na encenação de João das Neves. É ela, numa das mais belas cenas do espetáculo, que traz Ogum pra dançar, Orixá dono-da-cabeça do Besouro.
Esta bela presença abre espaço para uma série de narrativas sobre o Besouro. É um espetáculo episódico, que tem na música, lindamente dirigida por Luciana Rabello, um dos seus maiores trunfos. Arranjos vocais que exploram ricamente os timbres marcantes do elenco, resultando em harmonias ora macias, ora profundas, melancólicas, festivas, um mosaico de sentimentos embebidos da nossa herança africana, remexendo nossa consciência adormecida. O uso maciço desse recurso, por vezes o torna sem o brilho esperado ou a modulação de atmosfera que garantiria um embarque certeiro nas histórias. O elenco, apesar de equilibrado, mostra algumas fragilidades que se não chegam a atrapalhar a cena, é fundamental na nossa filiação a algumas narrações. E quando nalguns momentos narrativa e canções se interpõem confesso que me deixo trair pela segunda, esta que também não deixa de ser eixo dramatúrgico daquela encenação, resgatando-nos pela lembrança de obras que marcaram época.
Quando somos convidados para jogar capoeira e alguns da platéia logo se apresentam para entrar no jogo, fico ainda mais feliz por esta diluição de fronteira e tenho a certeza que a encenação se conduz como um xirê, a forma festivo-comunitária do Candomblé, onde temos uma seqüência de louvação dos orixás e onde a tendência é assistência e representação irem se confundindo, se amainando uma a outra. E temos um final lindo, onde a disposição circular se encerra, todos de frente para saudar São Bento, padrinho do Besouro-Mangangá, que me lembra o final de uma festa no terreiro, quando assim fazemos para cantar para Oxalá, o Pai Maior. E saio do teatro energizado, envolvido, tendo visto um espetáculo onde tudo é um fruto sazoado, detalhado, desde a letra música-cerne da encenação, dispota como os letreiros do profeta Gentileza no Rio de Janeiro, até atores que sussurram no seu ouvido e se movimentam como cobras nalguns momentos. Desde o assombro de Iansã dançando e me lembrando que é nos braços dela que vou repousar um dia.
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1. Esquife, numa concepção "antiga", quer dizer "pequena embarcação".
*Ator, encenador, professor de teatro e músico. Para críticas da crítica, sugestões, perguntas e, de repente, elogios, mandar e-mail para marconibispo@hotmail.com ou para os editores do site.
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