Exímia manipulação é o maior trunfo do Grupo Giramundo
por Leidson Ferraz*

Caatinga

Em 1980, na cidade de Washington, Estados Unidos, apenas dois grupos brasileiros foram convidados para a décima-terceira edição do mais importante evento a reunir bonequeiros de todo o mundo, o Festival Internacional de Teatro de Bonecos, promovido pela Unima (Union Internationale des Marionnettes). Foram eles: o Grupo Giramundo, de Belo Horizonte, e o Mamulengo Só-Riso, de Olinda, escolhidos pela excelência de seus trabalhos. Portanto, é mais do que natural que a vinda do grupo mineiro à nossa capital pernambucana – e isso aconteceu poucas vezes –, atraia uma enorme platéia, bastante receptiva às estripulias de suas criações, bonecos dos mais variados tamanhos e técnicas de manipulação. Com o espetáculo Caatinga, com texto, direção e bonecos de Ulisses Tavares, o grupo pôde ser visto no último domingo, dia 4 de maio, no Teatro Armazém, como atração do Festival Palco Giratório Brasil-Recife, promovido pelo Sesc Pernambuco.

Assim como o Mamulengo Só-Riso, hoje, o Giramundo, em atividade desde a década de 1970, é muito mais do que um grupo de teatro de bonecos. É uma instituição (com museu, teatro e escola), um centro de pesquisa, de preservação e de refinamento na produção de suas criaturinhas, com interesse voltado totalmente à cultura brasileira. Caatinga é resultado disso tudo. A montagem integra o projeto Mini-Teatro Ecológico, lançado em 2002, que pretende revelar, através de dez montagens ao total, a fauna e a flora brasileira, com alertas à destruição da natureza, seja na Mata Atlântica, no Cerrado ou na Amazônia, entre outros universos geográficos. Totalmente ambientada na Serra da Capivara, no Piauí, Caatinga traz em si não os silêncios ou a aridez tão explorados quando o palco é de terra seca, mas a cor e os seres dessa região imersos num bom humor que impressiona. Para agradar a pessoas de qualquer idade.

Apenas três atores/manipuladores – Angie Mendonça, Márcio Miranda e Daniel Mendes - revezam-se entre os personagens de carne e osso e as dezenas de animais, o ponto alto de toda a montagem. Não é a dramaturgia que impressiona, mas a manipulação dos bonecos de fio, muitas vezes nos levando ao universo dos melhores desenhos animados do cinema, tamanha a precisão de movimentos dos bichanos. Também são feitas homenagens aos mamulengos, através da manipulação de bonecos de luva. Na trama, em meio à aparição de um famigerado lobisomem, o espetáculo aborda o tráfico de animais e o desespero destes diante da possibilidade de abandonar sua terra natal, a caatinga. De pássaros a jumentos, de cutias a teiús, tudo parece tão precioso em sua manipulação que nos esquecemos do desenrolar de suas “tragédias”, como a de um sapo que de tão gordo, quase não se mexe para fugir; ou a de uma ossada de vaca que discute seu real valor para a posteridade diante de um fóssil de dinossauro. O clima é mágico e as tramas vão e vêm em meio à aparição dos humanos, numa clara tentativa de interação com a platéia.

E olha que o público não se fez de rogado! A meninada sentada bem próxima à caixa cênica, uma espécie de tenda de bonecos de madeira, com vários compartimentos que abrem e fecham para o desenrolar das cenas, participou bastante de toda a história, seja assistindo com olhinhos atentos ou discutindo sobre o que via em cena (e haja discussão!). A mensagem de preservação da natureza, tão propagada pelo projeto, até fica, mas a brincadeira é quem realmente sai ganhando e não há quem não se deslumbre com a lembrança de personagens tão simpáticos, como a histriônica cabrinha com seu balido ou o jumentinho e seu risível zurro. Insinuações bem adultas permeiam alguns diálogos e fica clara a pesquisa para tipos tão bem construídos, mesmo em cenas tão rápidas.

Assistir ao Grupo Giramundo é sempre um enorme prazer – eu já os vi em Cobra Norato, uma verdadeira obra-prima, sobre lendas aquáticas amazônicas; e Pedro e o Lobo -, principalmente pela delicadeza tanto na construção (primorosa) quanto na manipulação dos bonecos, e não foi diferente desta vez com Caatinga. Pena que os problemas com os microfones dos atores tenham nos feito perder várias piadas, assim como o volume excessivo da trilha instrumental que permeia toda a encenação – bela, por sinal, criação do grupo mineiro O Grivo. Mas só em termos visto bichanos de madeira e fio parecendo criaturinhas de verdade, com tanto bom humor, a ida ao teatro já valeu a pena. Parabéns ao Sesc Pernambuco por esse presente.

*Ator, jornalista e pesquisador teatral

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