Conceição de
corpo e alma
por João Denys Araújo Leite*

Por ocasião da segunda edição do Festival Palco Giratório Brasil-Recife, realizado pelo Sesc-Pernambuco, Conceição, espetáculo do Grupo Experimental de Dança, reaparece na cena recifense mais amadurecido, mais intenso, retrabalhado com novos integrantes, mas mantendo o núcleo de dançarinos e idéias que lhe dera origem em 2007.

O espetáculo parte de uma matriz pós-moderna de base tradicional. Uma manifestação, simultaneamente sacra e profana, que oferece ensejo para inúmeras leituras e pesquisas sobre a forma dos recifenses re-elaborarem e representarem seus desejos, seus atos de fé, suas concepções de vida e morte, sua eroticidade, seus modos de louvar uma entidade feminina virgem e grávida que com os pés esmaga ou sufoca as trevas da maldade, tendo a fina luz da lua nova como esteio. Refiro-me à Festa do Morro da Conceição. Uma festa do povo, no alto de todas as misturas, que a cada dezembro, de tantos anos, reúne todas as tribos para a louvação, o agradecimento, a oração, a dança, a música, a mendicância, o amor do espírito e da carne, a embriaguez, a luta, o furto, a troca, o comércio, a representação, a alegria, a dor, o sacrifício, o grito, as lembranças, as fitas, as flores, os rosários, os pedidos, as imagens, os santinhos, as medalhas, as velas e o calor que milhares delas exalam, o silêncio contrito, a escalada lenta para o alto onde repousam os pés da rainha da terra, do céu, do mar, do ar tropical, das estrelas da água e das galáxias. Todos os desejos justificam-se e confluem para a Mãe Imaculada de todos os viventes que aos seus pés retificam e ratificam suas crenças e suspendem o tempo da cidade perturbadoramente plana. No alto do morro, mas sob a “Rainha de clemências de estrelas coroada”, a comunidade mostra suas garras, demonstra seu carinho, espalha seu cinismo de mistura com os políticos profissionais. Compram-se votos e ex-votos, velas votivas também, sambam no pico das habitações que sustentam a terra em ascensão. O corpo treme, o sangue ferve, os pés frevam, o sexo explode nas ladeiras. Beijos, recados, seduções, conquistas, persignações, obrigações, despachos, azuis infinitos com sereias na orla de todas as marés brasileiras. A Senhora dos aflitos equilibra-se sobre a multidão dita miscigenada, mas predominantemente marrom, enlameada, de mãos postas ou deslizando sobre corpos suados, lábios, línguas e dentes degustando prazeres supostamente antagônicos. Tudo isso e o invisível, em sincronia, numa polifonia típica do nosso tempo veloz, múltiplo e caótico. Com um olho em Maria e o outro em Yemanjá, rios de corpos sobem e descem como uma cachoeira elétrica, concebendo por um dia a felicidade almejada e o futuro de alegrias no Natal e no Ano Novo. Por isso o Morro da Conceição é a Arvore de Natal precipitada, enfeitada de pequenos lares luminosos, rosários e penas, hinos, canções e sonoridades de todas as nações, de todos os poderes. 

Creio que, de posse de toda esta visão que agora invento, Mônica Lira e seus bailarinos tinham de optar por uma vertente dessa grandiosa festa para significar algo com sua dança moderníssima, mas acima de tudo dança que nos emociona e nos faz entrever pela cortina de flores, contas, santos e casinhas que constitui o fundo do cenário, um povo-mundo impossível de reproduzir. A coreógrafa e seu grupo optam pela concepção de uma fé racionalizada, selecionada, combinada, como em toda grande arte. Os corpos em cena expressam o sentimento concebido pelos sons, imagens, movimentos, pulsações, respirações e transpirações que viram e sentiram ao testemunhar e participar do redemoinho de vida e morte que gira em torno da virgem. Cada elemento do conjunto sacrifica seu corpo, seriamente treinado e trabalhado, para dizer tudo isso com força, equilíbrio, ritmo, com uma música interna, orgânica, que vai ao encontro da música externa e dela se apropria com amor, produzindo novas orientações espaciais, cinéticas e temporais. 

O espetáculo deixa claros os propósitos estéticos e ideológicos do Experimental: a experiência permanente com a linguagem corporal da dança e um compromisso sociocultural e político com a cidade do Recife, com as minorias que são a maioria, com os aglomerados de gente posta à margem, mas que tomam o centro da cena com sua agonia: penso nos espetáculos Quincunce (2000) e Barro-Macaxeira (2001). A partir desse chão as idéias traduzidas em dança comunicam abertamente com o mundo, sem reduzir as matrizes geradoras a localismos ou regionalismos ortodoxos e exóticos. 

Conceição tem início com uma babel de sons que informa o universo ao qual o espetáculo vai se referir. Os bailarinos distribuem aos espectadores folhas de papel com imagens congeladas, em preto e branco, das gentes e classes que acorrem ao morro e agem nos dias dedicados a Nossa Senhora da Conceição. Didático, sem didatismo, eles querem nos dizer: “eis a matéria bruta de nossa concepção”. O que veremos é outra produção, uma mímesis sofisticada que enfatiza não a semelhança, mas a diferença deles mesmos, profissionais da dança.  

Tendo o ventre feminino da cidade e de cada um como lócus da ação, os bailarinos-criadores iniciam os passos da jornada que se desmembrará sobre os receptores. Principiam a difícil caminhada do múltiplo ao uno. É como se eles nos perguntassem: “Em que vocês acreditam?” “Vocês crêem no que vêem?” “Vamos começar tateando a terra-carne, andando sobre a instabilidade de um tapete orgânico de músculos e ossos que suporta e rebela-se contra as pegadas de quem quer trilhar um terreno vivo que se recusa a manter entrelaçados seus fios”. Sobre esta tessitura em permanente desfazimento, o indivíduo busca, na atmosfera primeva que a música desencadeia, os poderes da criação ou as possibilidades de experimentar estes poderes.  

As roupas dos dançarinos, cor de terra, prolongamento de tecidos corporais, prestam-se a essa cerimônia agônica instaurada logo no início do espetáculo. Sentimos de imediato que no decorrer das coreografias não haverá lugar para os aspetos burlescos, jocosos, carnavalescos bastante explorados na Festa do Morro. O “eu morro para ressuscitar” parece dar a tônica do que começamos a fruir. É preciso subir o morro de gente, ser levado pelos corpos que o compõem. Viver e sobreviver sobre os outros, numa escalada humana e sobre-humana. Cada penitência de movimentos precisos não escamoteia as leis sincréticas que regem a sobrevivência material e espiritual das classes sociais rastejantes. Revela ao mesmo tempo a sobrevivência técnica e criativa do grupo de bailarinos, experimentadores de outras possibilidades de movimentos significantes com a cidade, pela cidade, para a cidade. Fé, pé a pé, neste mar negro, com uma luz que elucida e transfigura os corpos de sereias, homens-peixe, mulheres-peixe, caranguejos ou anfíbios no local de uma cultura também anfíbia. Erguidos do solo por pés, mãos, ventres, costas, cabeças, os corpos almejam um meio de alcançar e desbravar o espaço da vida e da arte representado pela maternidade, pela mãe. Mas de onde emergem os frutos dessa mãe prenhe de vida? Por vezes da água pura do líquido amniótico, das águas salgadas do mar, das águas doces e imundas dos rios, da lama viva que habita a cidade, ou da íngreme escadaria que alteia a fé e, contraditoriamente, eleva a desesperança.  

É lidando com essas contradições que os corpos de Conceição levam a diante cada coreografia. Se falta alegria, riso, contentamento, é porque as “sinapses” de articulação entre o processo digestivo real e o processo simbólico de apreensão da realidade, que serve de lastro à concepção do espetáculo, são de natureza abissal. Nem a chuva de míseras moedas sobre a pequena lata vazia de leite do mendigo, nem a dança no escuro deste mesmo cego, no qual vai se operar o milagre da visão, nos faz sentir alegria diante do doloroso ato crítico-dançante de desfiar peça por peça do trabalho pesado a nós exposto. O prazer está na realização e na recepção do espetáculo. 

É preciso benzer-se a cada momento, pois as graças femininas nos informam também de seus poderes dionisíacos, de suas forças geradoras e destruidoras. Diante de tudo que já dissemos como expressão dos sentidos e dos sentimentos, ao acompanharmos cada elevação e cada descensão no plano mais baixo do palco, nos resta antever a Virgem Apocalíptica que Mônica e seu grupo nos entregam, plena de luz dos trópicos. Restam-nos os corpos líquidos de medusas, de algas, de moluscos, de polvo e povo que esconde a cabeça. Resta-nos um espetáculo palpitante de respirações vistas e sentidas. Resta-nos a sofreguidão de um morro-mulher resistindo com suas luzes, seus santos, seus fiéis. Resta-nos, por fim, um espetáculo que nos atravessa pela emoção e a técnica de seus realizadores. 

*É dramaturgo, encenador e professor da UFPE.

 

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