Coreológicas: dança para experimentar
por Christianne Galdino

Coreológicas

Interatividade: essa é a primeira palavra que nos invade ao entrar no universo do espetáculo Coreológicas. Mas interatividade não é nenhum fato novo, pelo contrário, tem sido praticamente o mote das criações em dança contemporânea. O mesmo não se pode dizer da leveza que permeia todas as cenas do Coreológicas- Recife, produção de estréia do recém formado Grupo Acupe de Dança. Estamos tão acostumados às reflexões extremamente sofridas e à movimentação tensa dos espetáculos contemporâneos, que chegamos a estranhar a forma sutil como as questões são colocadas em cena na versão recifense do Coreológicas. Os mais desavisados ou menos tolerantes podem, inclusive, ter dificuldade em identificar qualquer tipo de questionamento ou posicionamento político, na movimentação, ou, até acreditar que a composição é aleatória. Mas não é. O projeto idealizado pela paulista Isabel Marques tem como base os estudos do bailarino, coreógrafo e educador austríaco Rodolf Laban, e, no caso da montagem recifense, mais especificamente os conceitos de corpo, peso, ações corporais, tensões e projeções espaciais. O que acontece é que Laban, traduzido por Marques, ganhou atualizações (Até mesmo porque há que se fazer uma adaptação dos conceitos e da sua aplicação, afinal Laban desenvolveu seus estudos no início do século XX) lúdicas, que aproximam a dança do jogo, das brincadeiras de criança. Porém qualquer tentativa de tratar a coreografia como produção voltada exclusivamente ao público infantil, denota um certo preconceito por parte do observador, talvez tomado pelas imagens dos figurinos e cenário da obra, com fortes referências do universo infantil. A opção pelo colorido e casualidade no vestir, além da tela de proteção que delimita o espaço cênico, acabam remetendo à memória de parques e brinquedos, como a cama elástica e o pula-pula comuns aos espaços de lazer dos shopping’s, por exemplo. Mas essa cara de criança não atrapalha e, pelo contrário, até ajuda a colocar todos, independente da faixa etária ou preparo físico, na mesma condição de espectador participante do espetáculo.

Coreografado por Isabel Marques com assistência de Paulo Henrique Ferreira (que também é um dos intérpretes), o Acupe conseguiu propor uma experimentação prazerosa dos conceitos labanianos. Quer coisa mais propícia e gostosa do que entender as questões do peso corporal sendo carregada nas costas ou nos braços de um bailarino?! Os mais tímidos e os excessivamente voyeur’s que me desculpem, mas sentir, em se tratando de dança, é bem melhor do que somente olhar. Isso me lembra um pensamento de dança do pesquisador gaúcho Airton Tomazzoni com o qual concordo em gênero, número e grau: “Os movimentos do corpo impõem sua fisicalidade, sua materialidade. Tem-se uma experiência cinética que se conforma num vocabulário coreográfico que não permite uma direta e precisa tradução. Na dança os signos não são determinados apenas por convenções preestabelecidas, mas pelas qualidades do corpo que se move, pela aparência desse corpo, pela sua forma. Antes de qualquer operação é o nível sensorial que fala”1. E nesse sentido, podemos dizer que o Coreológicas é uma festa para os sentidos. A audição, por exemplo, é mais que presenteada com uma trilha sonora original composta por Marcelo Sena. Ora enfatizando a suavidade com melodias de um piano adocicado, ora apostando na quase crueza da percussão, ele acertou no tempero das composições que, acima de tudo, mostram-se coerentes com a proposta coreográfica e em perfeita harmonia com a concepção do espetáculo. Aliás, tudo no espetáculo parece transpirar essa harmonia. Apesar de trabalharem juntos a pouco tempo, elenco e equipe transmitem uma consistência que impressiona; o que talvez seja resultado do amadurecimento do projeto, que já é desenvolvido há mais de dez anos (por Isabel Marques e sua Caleidos Cia. de Dança, em São Paulo); ou  talvez seja fruto da vasta experiência cênica dos bailarinos-criadores Fernanda Lobo, Kizer Carvalho, Mieja Chang, Roberta Cunha e Paulo Henrique Ferreira.

A movimentação que parece fluir casualmente soma-se à interpretação naturalista dos intérpretes, impregnando de espontaneidade as cenas. Uma espontaneidade transbordante que contagia também a platéia que desde início entende que aquele não é um espetáculo para se ver e sim para se viver. E por falar em ver, “o olho no olho”, outra atitude pouco ou nada habitual às produções de dança contemporânea aparece aqui como fio condutor do Coreológicas. Os olhos comunicam, direcionam a atenção do público e, às vezes, também se excedem na insistência pela participação. Os mais reservados chegam a se sentirem constrangidos ou coagidos a participar. Nesses momentos ajudaria um maior exercício de naturalidade por parte de alguns bailarinos, para evitar a expressão over, que soa artificial em alguns trechos do Coreológicas, nada que comprometa a qualidade da obra. Digamos que o trabalha ainda pede alguns ajustes de sintonia, nesse sentido.

Contudo, os convites são claros: a experiência corporal não é obrigatória, quem quiser pode ficar de fora e, com certeza, também irá aproveitar de alguma forma, mas estar dentro, sentir-se co-autor é o real propósito da obra, inclusiva em todos os sentidos. Ainda que não haja uma narrativa convencional, o espetáculo mexe tanto com o emocional através das vivências corporais partilhadas e da ausência total de separação entre espectadores e artistas, que a comunicação acontece. Em nível sensorial como já dissemos, e mais profundamente do que supõem os olhares preconceituosos. Se cria uma intimidade que pode levar facilmente a comoção. Coreológicas coloca-se propositadamente no limite entre espetáculo-aula-terapia e acaba conseguindo abarcar essa tripla missão. O que também dá margem a interpretações e leituras diversas da obra. O que importa é nos guiarmos sempre por duas bússolas: a qualidade e a coerência.

Interessa dizer é que esse “convite a dança” aproxima as pessoas dos seus próprios corpos, revelando inclusive habilidades corporais desconhecidas de cada um. Coreológicas nos ensina que arte e educação, assim como prática e teoria são coisas indissociáveis. O Coreológicas mostra que a dança contemporânea não é só para uma elite intelectualmente super-dotada, pelo contrário, pode a todos alcançar, emocionar, comunicar, pode a todos se conectar. O Coreológicas fala que a dança contemporânea também pode ser feliz (e como parecem verdadeiramente felizes aqueles bailarinos-criadores...talvez por isso todos aceitem tão prontamente o convite para dançar, praticamente irresistível). Mas a principal lição trazida por essa experiência coreológica é que uma pluralidade de idéias e formatos pode caber na dança contemporânea, basta que tiremos “os tapumes” da mente.

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