Gaivotas e sua narrativa falsificante sem eficácia teatral
por Wellington Júnior*

Gaivotas - alguns rascunhos

"O real que insiste em aparecer na arte contemporânea é um real traumático, ligado ao fracasso do simbólico, ao que o discursivo não consegue atingir" (José da Costa)

As experiências teatrais contemporâneas estão preponderantemente questionando a noção de presença no teatro. Isso fica bem claro nas palavras do professor José da Costa:

"Questionar a noção de presença no teatro de nossos dias implica indagar sobre os modos de representação do sujeito, a concepção e o sentido, bem como com as relações entre o corpo do ator e a imagem virtual freqüentemente utilizada em cena".

Essa múltipla problematização da noção de presença na cena contemporânea nos remete a outro conceito: narrativa falsificante – é um espaço de pura invenção, como produção de ocorrências que só se dão no momento da própria espetacularização; é um território intelectual de simulacros, reflexos sobre reflexos, múltiplos espelhos.

É este conceito de narrativa falsificante (dialogando com a noção de presença) que é o foco de ação da montagem Gaivotas (alguns rascunhos) do Grupo Piollin (PB), apresentada dentro do Festival Palco Giratório Recife – 2° edição.

O espetáculo é baseado no original A gaivota de Anton Tchecov. Neste texto, o autor russo apresenta um debate sobre as novas formas teatrais, e as íntimas relações entre tradição e ruptura.

A montagem do Piollin traduz em sua forma cênica esse debate estético presente no texto. Então, por exemplo, ao mesmo tempo em que vemos os atores interpretando os personagens tchecovianos, também vemos os próprios atores mostrando suas angústias e reflexões sobre o teatro.

Este excelente conceito de encenação elaborado pelo diretor Harildo Rego nos faz refletir sobre a noção de teatralidade hoje diante dos simulacros de nossa sociedade do espetáculo. Mas os problemas da montagem aparecem quando este conceito não consegue uma eficácia cênica.

E esta eficácia cênica não aparece no trabalho dos atores. Harildo Rego apresenta com seus atores a noção de não-interpretação. Nesse processo importa ao ator estar em cena sem que para isso ele precise demonstrar potencialidades especiais. O encanto do trabalho deveria vir do momento feliz de simplesmente 'estar' em cena. Essa forma de interpretação foi bastante trabalhada pelo grupo Asdrubal Trouxe o Trombone, e num depoimento o diretor Hamilton Vaz Pereira esclarece essa forma de atuação:

"o que a gente fez que hoje se torna uma contribuição para novos grupos, é fazer com que o cara como ele é, ele consiga mostrar algum desempenho em cena, menos do que uma representação de um personagem".  

Mas os atores Ana Luísa Camino, Buda Lira, Everaldo Pontes, Nanego Lira e Thardelly Lima não conseguem esse exercício cênico da não-interpretação. Suas 'personas' cênicas não se estabelecem de forma clara. Não se destacam uns dos outros. Suas atuações não ganham uma assinatura tão forte que os marquem definitivamente. Então o trabalho dos atores acaba resultando sem potencialidades cênicas.

Este problema com a gramática cênica do elenco contribui decisivamente para tornar Gaivotas  um espetáculo frio e sem sentido. Porém espero que esse seja o início da pesquisa do Piollin sobre essa forma de atuação, pois com certeza no futuro dará frutos interessantes.    

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Neste texto trabalhei com o seguinte material teórico: a tese de doutorado do professor José da Costa (Teatro brasileiro contemporâneo: um estudo da escritura cênico-dramatúrgica atual) e o livro de Mauro Meiches e Sílvia Fernandes (Sobre o trabalho do ator). Indico os dois materiais para leitura.

*Colaborador do TeatroPE, Arte-educador e encenador.

 

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