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O palhaço Jurema e os peixinhos dourados |
A figura do palhaço é enigmática e assombrosa. Quem se esconde por trás daquela máscara, que sentimento, que vida habita aquele corpo? O que há debaixo da maquiagem? Fazendo uma reflexão ampliada a respeito do enigma por trás dessa personagem, “o palhaço”, arrisco dizer que a cultura contemporânea das “celebridades” alimenta-se exatamente dessa curiosidade, desse interesse em retirar o véu daqueles que nos divertem.
A figura do palhaço triste, que espalha alegria - mas traz em seu interior uma tristeza profunda – chega mesmo a ser mítica. O palhaço triste é a tradução de um conflito existencial perturbador, de uma contradição humana profunda, ou seja, uma personagem de grande teatralidade – posto que carrega em si uma forte tensão dramática.
Não resta dúvida que a personagem Jurema, criada por Hermilo Borba Filho - e materializada cenicamente pela adaptação do diretor Carlos Carvalho e pelo trabalho do ator Gilberto Britto – é uma personagem de forte apelo teatral. Pela humanidade que transpira – e é de humanidade que vive o teatro. No entanto, e não conheço o conto original de Hermilo, a dramaturgia do espetáculo O palhaço Jurema e os peixinhos dourados parece não tecer uma narrativa que se sustente teatralmente.
È claro que a montagem trabalha com noções de tempo e espaço não realistas. Ali, em cena, vislumbramos – melhor, espreitamos – o cotidiano de Jurema, sua pequena habitação, a miséria em que vive, a bagunça de seu espaço físico e mental. A dramaturgia trabalha com a sobreposição dos planos do real, da alucinação, da memória. É assim que vemos a atriz Andrezza Alves, num trabalho delicado e cuidadoso, desempenhar o papel de uma figura quase espectral, que passeia pela vida de Jurema (Seja em suas memórias, em seus delírios ou desempenhando as vezes de narradora).
O que me parece mais complicado, na verdade, não é a maneira que a cena organiza esses planos. E seria profundamente careta e antiquado se eu sugerisse uma formalização do espaço, por exemplo, para apartá-los. Pois penso que a idéia é mesmo a de nos lançar no turbilhão da mente de Jurema, na sua desordem. O que me incomoda é a falta de colorido dramático da dramaturgia. Temos uma personagem forte, uma atmosfera também consistente, mas ela permanece a mesma quase ao longo de todo o espetáculo. É como se cena estivesse parada, estagnada, inerte. A ação não caminha.
As atuações não chegam a criar de todo as modulações necessárias para quebrar essa linearidade. Em suma, o que quero dizer é que falta ao espetáculo a sinuosa linha dramática, cheia de altos e baixos, de ascensões e descensões, que garante a adesão da platéia.
Próximos do final, conhecemos a história da violência cometida por Jurema contra uma garota menor de idade, episódio que imprime algum movimento à dramaturgia. Jurema sente-se irremediavelmente atraído pela garota, um feixe de vida, e a estupra. A questão chegou a ser alvo de discussão no debate que se seguiu à peça.
Eu sinto necessidade de dizer que a relação da cultura circense com a criança é inteiramente diferente de outras culturas – em especial no tocante às relações de trabalho (crianças trabalham no circo e isso faz parte de sua formação); bem como no tocante à erotização do corpo (especialmente feminino). O que pode ter alguma implicação numa crítica que se preocupe com a abordagem que o texto faz dessa cultura, desse “outro” circense, tratando-o, talvez, a partir do nosso olhar moralizante. Eu, no entanto, não tenho pretensões de aprofundar a discussão nesse espaço.
Há outras tantas questões que o espetáculo aborda. A questão da miséria material da cultura circense, por exemplo, também careceria de um debate mais amplo. Conversando com um amigo após o espetáculo, eu dizia que a tristeza de Jurema, sua quase desistência da vida após quarenta anos de picadeiro, era reflexo de uma miséria da alma. “Mas essa miséria da alma não seria puro reflexo da tal miséria material?”, objetou meu amigo. Não sei responder. Eu arrisco dizer - e sei que ingenuamente - que a miséria de Jurema é mais da alma que do bolso. Questões em suspenso!
Penso, portanto, e de maneira conclusiva, que O palhaço Jurema e os peixinhos dourados é um espetáculo que provoca, que nos mete a refletir sobre a desgraçada existência humana, mas que não consegue explorar de todo cenicamente a assombrosa figura do palhaço triste e sua desdita.
EPÍLOGO
Esta é a derradeira crítica que o TeatroPE publica como cobertura ao Festival Palco Giratório – Recife. Como este texto, chegamos à marca de 22 ensaios sobre os espetáculos que compuseram a mostra. Entre os colaboradores, nossos agradecimentos a Luiz Felipe Botelho, Leidson Ferraz, Marconi Bispo, Júnior Aguiar, João Denys, Wellington Júnior, Williams Santanna e Christianne Galdino.
Como editor-geral, provocando nossos colegas ao exercício da escrita crítica, lendo, revisando e publicando diariamente os textos, minha alegria é enorme. Acredito que o TeatroPE vem conseguindo devolver à cena local um espaço para a reflexão, para o debate, para o diálogo, para o livre trânsito de idéias. Esse sempre foi o objetivo maior do Portal.
Além disso, tem sido estimulante o encontro com escritas até então adormecidas, o contato com o pensamento de tantos artistas, a possibilidade de multiplicar os olhares sobre a cena. A constituição de um grupo de colaboradores é mesmo uma forma de desmontar os monopólios do gosto, de desconcentrar e desestabilizar poderes.
Faço, portanto, um convite a todos aqueles que tiverem interesse em colaborar com o TeatroPE. E reitero nossa crença de que somente com o exercício da reflexão e da auto-reflexão, nossa cena caminhará no sentido de um aprimoramento permanente.
*Editor-geral do TeatroPE, Jornalista, Professor de Teatro, Mestrando em Comunicação pela UFPE.
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