Do mínimo e do tédio: pequenas notas sobre o teatro de formas animadas
por Marconi Bispo*

Sou simpático - e adepto, ao teatro que tem na pesquisa séria e permanente seu sedimento. Não acredito na frouxidão como alimento para a cena. Leveza é outra coisa, algo que os que pesquisam buscam, uma espécie de vôo que a atividade concentrada proporciona. A gente se exaure para ter prazer. Descansamos, feito Deus na Criação, depois de trabalharmos para pôr as coisas no mundo. Tem duas coisas que vi neste festival, que partem de um mesmo nicho, de uma mesma fonte, que me trouxeram sensações opostas.
Circo Minimal

Dois espetáculos que tem nas formas animadas seu maior trunfo, ainda que apontem para dois resultados bem distintos: um me aproxima, espacialmente e ludicamente, o outro me mantém distante, a hipérbole do que se pode ser um espectador, algo que me incomoda.

A Cia. Gente Falante Teatro de Bonecos, fundada em 1991, trouxe o seu Circo Minimal, uma pequena (mesmo!) caixa de sonhos onde figuras animadas mostram suas peripécias. Conheci o Vá dançar nas profundezas, há dois anos atrás. Entrei na caixa-teatro e já me interessou a possibilidade daquele contato tão próximo, o que me remetia às nossas brincadeiras de infância, onde manipulamos bonecos e outras coisas, no mais das vezes miúdas, tudo transformando a partir do nosso desejo. Entrar naquele cubículo já é em si lúdico e proporcionador de enleio. É uterino, pega-nos por uma força inconsciente que talvez nem nos seja clara, nítida. Mas é uma sensação de retorno. É um outro mundo que nos acolhe e quase me sinto prisioneiro da fantasia. O espaço lhe põe diante disso, quer queira, quer não. Depois, vêm os peixes, a Galinha Galinova e a noção de embarque se consolida.

Cada espetáculo tem quatro minutos de duração, mas começa antes, na nossa preparação para entrar ali e querer saber o que vamos encontrar. O fascínio pelo mistério, o desejo de descobrir. Trouxeram para Recife, respectivamente, A Galina Galinova e Vá dançar nas profundezas. No primeiro, confesso que a presença visível do manipulador incomoda um pouco, o que não temos no segundo espetáculo. Estarmos diante e cônscios de como a mágica é feita, torna nossa adesão mais “demorada”. Neste sentido, ver a mão do manipulador trazendo o segredo, torna-o palpável, antecedido, notável. Esses detalhes, ponto alto dessa proposta, são mais bem resolvidos no Vá dançar nas profundezas, razão pela qual, talvez, me encantei de forma mais direta, rápida. O próprio colorido dos bonecos e o manipulador completamente ausente no plano visível da cena garantem degraus a mais na fantasia. E não importa se saímos de casa para ver quatro minutos de espetáculo. Estamos imersos, na proposta do Circo Minimal, em lampejos de fantasia, centelhas* de magia num mundo que corre rápido, nem sempre para acompanharmos a trajetória de uma galinha soprano ou de um peixe abusado. Ainda bem que o teatro nos leva a parar um pouco. Ainda, e é bom que seja, para nos movimentar depois.

Correndo fui para o Teatro Apolo, assistir Larvárias, da Cia do Giro. Como havia dito, sou simpático a pesquisas sérias no campo teatral, algo que é bem presente no trabalho dos diretores Daniela Carmona e Adriano Basegio. Contudo, aprecio ainda mais pesquisas que se aproximam do espectador e não resultam em experiências frias, tediosas. Larvárias coloca em cena seres antropozoomórficos vivendo conflitos que insistem em manter-se numa fronteira que beira o vazio e a não-definição, coisas sugeridas pelos próprios encenadores no debate, mas que não deságuam num bom espetáculo.
Larvárias

Só torna a comunicação sem vivacidade, distante.

No programa, os realizadores definem que o “espetáculo retrata os aspectos delicados do cotidiano, seu humor e poesia”. Mas, o apego excessivo aos aspectos formais daquelas figuras, seres com grandes máscaras, em figurinos de pouco poder sígnico, torna a cena repleta de boas imagens, todavia, com uma dramaturgia rasa que empoeira nossos sentidos, tornando a platéia sonolenta e o encontro completamente burocrático. É uma cena que nos paralisa não pelo fenômeno da catarse, aquele silêncio-agonia que nos põe em ebulição por dentro, fazendo calar as palavras. Paralisa-nos pelo tédio, pela não fruição. E saio do teatro com a sensação de que seria bom que as pesquisas em teatro fizessem valer o seu princípio gerador, aquilo que é sua base. Aquilo que o próprio Grotowski, citado pelos realizadores, afirma nos seus escritos que o “teatro é arte do encontro”. As máscaras são lindas, expressivas, a luz é bem cuidada, cenários e figurinos também, mas senti falta de outras pulsações para garantir este encontro.

Penso que a corporificação daquilo que eles consideram como “estados” em vez de personagens, é pouco propositivo de adesão e assimilação para aquelas situações-conflito. Em Larvárias temos símbolos, no mais das vezes, prenhes de vazio, esperando nossa contribuição para complementá-los, o que não é uma coisa ruim. Entretanto, o impulso para que nós empreendamos esta jornada é que é amornado e pouco convidativo. O não uso de palavras parece-me que obriga uma expressão corporal mais delineada, o que não se vê aqui. Ficamos diante de um jogo de imagens de razoável poder pictórico que vai se esgarçando porque carecem de conflitos substanciosos, impulsionadores de nossa filiação à fantasia.

E as formas animadas, ora se mostram dotadas d’alma, ora não, nos exemplos aqui descritos.  Sempre detentoras de mistério, elas têm meu maior respeito e admiração porque me colocam diante de questões cruciais para o entendimento do que é nossa arte, daquilo de que somos feitos. Fazer vivo um objeto inanimado é, talvez, a síntese do que sempre estamos buscando. Movimento alquímico que nos coloca diante do binômio morte e vida, divino e humano. Esta nossa transubstanciação.                                  

***

1. Centelha, segundo o dicionário Aurélio, no sentido figurado, “aquilo que brilha momentaneamente”.

2. Ambas as companhias são do Rio Grande do Sul.


*Ator, encenador, professor de teatro e músico. Para críticas da crítica, sugestões, perguntas e, de repente, elogios, mandar e-mail para marconibispo@hotmail.com ou para os editores do site.

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