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Um paroquiano inevitável (Foto de Fabiana Estevez) |
É incrível como algumas vezes os artistas passam por um longo processo de pesquisa, de mergulho consciente na construção de um espetáculo, mas o resultado, definitivamente, não chega a tocar a platéia. Essa foi a impressão que tive ao assistir o mais novo trabalho da Compassos Cia. de Danças, Um Paroquiano Inevitável, ou melhor, Sobre Um Paroquiano..., já que se trata de uma versão dançada da peça escrita por Hermilo Borba Filho, uma comédia, digamos, macabra. A apresentação ocorreu na última quinta-feira, 29 de maio de 2008, no Teatro Armazém, dentro da programação do Festival Palco Giratório Brasil-Recife. Com concepção e direção de Raimundo Branco, o espetáculo contou com seis intérpretes em cena: Sandra Rino, Patrícia Costa, Janaína Gomes, Gervásio Braz, Peterson Maia e George Cabral.
Antes de me debruçar sobre essa quase desconhecida peça hermiliana (poucas foram as suas montagens em Pernambuco – mais informações ao final desta página), confesso que tenho um receio tremendo quando os coreógrafos teimam em pôr seus bailarinos falando, porque quase sempre o resultado é desastroso. Em atividade há quase dezoito anos e com um elenco que transita entre o teatro e a dança com desenvoltura, a Compassos não pecou nesse item, até mesmo porque os textos ditos em cena não são o fundamental nesta montagem, chegando, algumas vezes, a ser proposital o baixo volume de voz dos artistas. Como disse o coreógrafo Raimundo Branco no debate após a apresentação, o objetivo foi fazer escorrer pelo corpo inteiro do seu elenco cada frase concebida por Hermilo Borba Filho. Da intenção à realização, isso fica bem evidente, mas enclausurado no próprio entendimento da equipe.
Para mim, que li o texto da peça dias antes do espetáculo, é inegável o esforço em traduzir para gestos, contidos ou extremos; repetições de movimentos, valorizando, principalmente, a tensão muscular; além de pausas e desconstruções de tempos em meio a poucos textos verbalizados, a trama escrita por Hermilo, mas, para quem não a conhece – e tive o cuidado de entrevistar algumas pessoas que lá estavam e nunca tinham lido Um Paroquiano Inevitável – o resultado, além de frio e distante, tornou-se quase que incompreensível. Por se apropriar de uma história que narra a trajetória de uma família marcada por desentendimentos (Pai, Mãe e três filhos, Poeta, Atleta e Noivo – no original há ainda um outro jovem, o Pescador, personagens quase anônimos, mas de funções sociais), com todos enfrentando o drama maior do desemprego, até aí, tudo transcorre bem, mas foi na figura principal, que desencadeia toda a ação, que senti a necessidade de uma melhor compreensão da real situação transposta à cena.
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Um paroquiano inevitável (Foto de Fabiana Estevez) |
A desagregação e a incompreensão presentes no lar (para desgosto da Mãe, um dos filhos briga para casar com uma negra) são bastante reforçadas na encenação de Raimundo Branco (é possível ver motivações íntimas de cada um dos familiares num mínimo gesto), mas, na obra hermiliana, os fatos acontecem por conta da presença do simpático Seu Enéas, um velhinho inocente, sem pistas de passado, que os visita diariamente na hora do almoço para filar uma bóia, graças à amizade que conquistou junto ao dono da casa. Para a figura materna, desde o aparecimento dele, tudo piorou. Entre a simpatia e o sinismo, Patrícia Costa é quem vive o misterioso senhor, muitas vezes regendo a ação das outras personagens. Dá a entender que é um ser etéreo que paira sobre aquelas existências, mas não há claridade que nos faça perceber que se trata da Morte em pessoa e que aquela família está fadada a um único destino (a cena final do texto, com todos morrendo juntos apedrejados pelos vizinhos, por atraírem o pior àquele povoado, é de clara inspiração “ibseniana”/Um Inimigo do Povo). Infelizmente, não percebi qualquer referência a isso na proposta da Compassos e, se há, pode-se dizer, encontra-se obscura demais.
É aí que Sobre Um Paroquiano... resulta numa incompreensiva transposição, já que, para o leitor, ao descobrir a verdadeira identidade do tal visitante, seguindo pistas de sátira aguda escrita por Hermilo, a trama ainda encontra-se na metade e uma importante jogada está por vir: é o próprio Enéas quem propõe – veja que ironia! – transformar a residência da família na casa funerária “Ao Paraíso”, salvando a todos da pobreza, mas não do trágico final. Na versão da Compassos, essa reviravolta dramatúrgica não acontece, e todo o restante se dilui. O resultado final que, para Hermilo, era pura comédia, mesmo grotesca e absurda, para Raimundo Branco é sinônimo de tensão e angústia ao excesso. A meu ver, o dramaturgo satiriza, com gosto amargo, essa nossa situação de vulnerabilidade diante da Morte. Afinal, somos ou não joguetes desse destino? E não é constante essa indesejável “presença” em nossa vida? E quem poderá afirmar que não é “Ela” quem comanda nossos movimentos, ações e tempos aqui? Portanto, fica a impressão que Raimundo Branco, além de salientar um único aspecto da obra, a morbidez, sem o humor que, a meu ver, Hermilo quis imprimir em sua peça, valoriza-a pela metade.
Quanto aos outros elementos da encenação, os figurinos idealizados por George Cabral e Maria Agrelli são apenas surrados e não possuem qualquer teatralidade (a camisa de malha para um dos filhos me parece de extremo mau gosto). Já a cenografia, sem indicação do responsável no programa, mostra-se desperdiçada. Há em cena, além de alguns bancos e da mesa-eixo da trama, umas espécies de portas ou janelas na lateral que deixam transparecer nuvens, numa clara referência à passagem desta para outra vida. A não ser por um ou outro momento em diálogo com a luz, durante breves passagens dos bailarinos, esse cenário me pareceu decorativo demais, sem aproveitamento maior algum. Sem dúvida, é a luz de Eron Villar a melhor criação da montagem, compondo nichos de atmosferas bem interessantes, de total acordo com o clima sombrio proposto por Raimundo Branco. A trilha sonora, também de Branco, segue a linha de estranhamento do trabalho, mas, curiosamente, por tratar-se do Teatro Armazém (sofrendo lenta deterioração nos últimos tempos), confesso que várias vezes achei que o som estava dando problema, o que poderia ser evitado se a edição das músicas e efeitos fosse mais bem acabada.
Por fim, quero salientar o último momento desta “versão dançada” de Um Paroquiano Inevitável pela Compassos Cia. de Danças, com o Seu Enéas desenhando o labirinto da brincadeira amarelinha no chão da sala. O jogo infantil – e aqui vale salientar que é esse o divertido diálogo que Hermilo destila nesta obra, seja pela morte que brinca com os seres viventes, conduzindo-os como quer, ou mesmo pela forma irônica de nos alertar que, a qualquer momento, podemos partir dessa para o desconhecido –, é um verdadeiro achado, até porque nessa brincadeira de pular, o descanso é exatamente no “Céu”! Ao se pensar na vida/morte, há melhor ironia que essa? Uma sacada fantástica que, infelizmente, não é suficientemente aproveitada, já que a tradução cênica dessa trama hermiliana para o teatro e a dança (e não dança-teatro) revela-se tão incompreensível da metade para o fim. O gosto de que o espetáculo acabou muito precipitadamente, então, fica inevitável.
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Um Paroquiano Inevitável ou Apenas Uma Cadeira Vazia ganhou publicação em livro em 1965, mas a obra foi escrita em 1954. A primeira encenação, intitulada Apenas Uma Cadeira Vazia, foi de Walter de Oliveira, com o elenco da Faculdade de Filosofia da Universidade Católica, em 1956. Também há registro de uma segunda versão, em 1961, com o título original, dirigida por Clênio Wanderley para o Teatro de Amadores do Recife (alguns documentos registram como sendo do Teatro Adolescente do Recife). Em 2004, a peça ganhou uma leitura dramatizada sob o comando de Carlos Bartolomeu, dentro da programação da Semana Hermilo Borba Filho. A estréia dessa “versão dançada” da Compassos Cia. de Danças, confessadamente “ainda inacabada” pelo coreógrafo Raimundo Branco, ocorreu em 2007, dentro da mesma Semana HBF, com o título A Dança dos Mortos ou Fragmentos de Um Paroquiano Inevitável.
* Ator, jornalista e pesquisador teatral.
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