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“Como estabelecer uma soma de conhecimentos que sirva a determinado fim – a atuação criativa contemporânea do ator do teatro -, sem criar tabus nem mistificar essa tarefa? Como a preparação do ator se fermenta, solidifica, aprofunda e transforma? Como os mestres da prática teatral viabilizam os seus processos?”.
Com esses questionamentos francos, diretos e contundentes, Antonio Januzelli – Janô inicia o livro de bolso indispensável ao artista de teatro “A Aprendizagem da Arte do Ator”, editado pela editora Ática dentro da Série Princípios, em 1986.
Ontem, 14 de maio de 2008, Janô trouxe ao Teatro Hermilo Borba Filho, dentro do Festival Palco Giratório do SESC – PE, o espetáculo O PORCO (Cia Arquipélago – SP), fábula inspirada no romance “Strategi por Deux Jambos” do francês Raymond Cousse, adaptado para o teatro pelo dramaturgo espanhol Antonio Andrés Lapeña, traduzido no Brasil pela atriz Eliana Teruel, interpretado pelo ator Henrique Schafer.
O texto nos apresenta um porco confinado em seu chiqueiro-mundo à espera do abate. O que inicialmente nos parece uma postura conformada em face ao fadado caminho da morte, vai transfigurando-se em reflexões profundas e questionamentos cortantes sobre a vida do porco e suas relações com o porqueiro, com os outros porcos e com o pequeno mundo que lhe pertence. Dentro dos seus 4 m² de território ele consegue estabelecer um sentido lógico e prático à sua própria existência – “eu sou um porco de uma outra escola”.
Inevitável e, deliberadamente, os questionamentos do suíno sobre o sentido de sua vida remetem o espectador a questionar e refletir sobre a sua. Sobretudo e, especialmente, a partir da proximidade estabelecida pela encenação – o que limitou o número de espectadores (não chegando a 100 pessoas), e pelas passíveis analogias entre a vida do suíno e de nós humanos. Raro o espectador que possa ter saído do teatro sem ser mexido, tocado, burilado a observar – mesmo que durante e algum tempo após a récita, nossa fragilidade humana contemporânea.
O espetáculo estreou em 2004 no porão do pequeno teatro paulistano, o Espaço Viga. Mas o processo havia iniciado em 2000, quando Henrique era aluno de Janô no Curso de Licenciatura em Artes Cênicas da USP.
Quem foi aluno desse provocante professor-doutor, leu algum de seus registros e estudos sobre a arte do ator, ou simplesmente assistiu uma de suas palestras, ou ainda, teve o privilégio de ter participado com ele de um processo de construção teatral, certamente não estranhará o tempo destinado ao processo de construção de O PORCO. Aliás, processo é um termo intimamente relacionado ao conceito de teatro de Janô que tem como o foco central no trabalho do ator.
Das leituras iniciais do texto, passando por exercícios e experimentos, Janô levou Schafer a se desprender de formas e conceitos pré-estabelecidos e, conseqüentemente, de suas fisicalizações, realizando o que ele denomina de “trabalho de limpeza”. Schafer afirma que o processo foi conduzindo à forma, sem racionalizações prévias, contando com suas potencialidades e dificuldades, o olhar e a mão competente e generosa de Janô.
Sob nenhuma hipótese deve-se crer que buscavam a técnica pela técnica, mas a construção processual de uma expressão teatral pautada na arte do ator. “A técnica de qualquer arte é, por vezes, suscetível de abafar, por assim dizer, a centelha de inspiração num artista medíocre; mas a mesma técnica nas mãos de um mestre pode avivar a centelha e convertê-la numa chama inextinguível” – Josef Jasser.
E Janô é um grande mestre. O que poderia resultar – como em outros processos de encenadores contemporâneos, numa encenação hermética, fruto de elucubrações complexas e identificáveis apenas pelo encenador, resultou num espetáculo essencial, prático, direto, simples e grandiosamente profundo.
O ator veste uma bermuda e um paletó surrado. Em cena, um balde velho e uma luz a serviço do encontro de Schafer com o público. Ele não se preocupa em tomar a forma física de um porco, mas mostrar o suíno em sua angústia vital. E nós vemos o porco. E nós nos vemos no porco de Schafer. Na essencialidade Suína que ele emprega. Seu olhar distante, quase frio, quase sempre para baixo; suas mãos temporariamente fechadas; e seus pés que, en passant, nos lembram uma pata são as únicas referências diretas ao corpo do suíno. Mas a essência está justamente na “limpeza” falada por Janô. Schafer parece estar nu – espiritual e organicamente diante de nós. Sem pudor. Sem excessos. Sem cascas. Sem máscaras. O homem, o porco e o porco-homem num único corpo.
Ouvimos sua voz e seu silêncio. Sentimos seus odores e seu calor. Sofremos e nos deliciamos com suas memórias, constatações e reflexões, enquanto juntos, esperamos a morte.
O PORCO é uma celebração à arte do ator e um libelo ao universo do espírito humano contemporâneo.
*Artista de teatro (ator, encenador e dramaturgo), arte-educador e historiador, Gerente de Teatro da Fundação de Cultura Cidade do Recife.
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