Sapatos do tamanho da vida
Por Luiz Felipe Botelho*

Ai daqueles que subestimam o poder que o teatro tem de construir realidades e revelar as múltiplas camadas que as fazem... Quem assistiu “O sapato do meu tio” é testemunha disso. Não admira os prêmios que esse trabalho vem recebendo, inclusive o Braskem de melhor espetáculo, troféu máximo do teatro na Bahia.
O sapato do meu tio

Dirigida pelo baiano João Lima, trata-se de uma obra construída a partir de elementos aparentemente muito simples, centrada no universo circense – mais especificamente o do palhaço – e que se basta dispensando praticamente qualquer diálogo verbal.

A peça pode ser resumida como sendo a trajetória de dois palhaços, o tio e seu sobrinho, que viajam por aí afora com uma carroça, sobrevivendo do que ganham, apresentando-se a cada lugarejo que encontram pelas estradas. Mas também pode ser a história do aprendizado de um palhaço ou da educação de uma criança para enfrentar a dureza de uma vida miserável ou da importância do afeto na sobrevivência diante das adversidades ou... sim, amigos, são muitas leituras possíveis e esse é um dos encantos desse espetáculo, que segue desdobrando imagens e emoções até o blecaute final. Falemos um pouco de como isso é construído na cena.

Na peça, o sobrinho é uma criança, numa interpretação inspirada de Alexandre Casali. Considerando que Casali é um homem robusto e de feições nada infantis, é impressionante como a platéia é levada a crer, logo no início da peça, que está diante de um jovem de não mais que dez anos de idade. O ator simplesmente está sentado no palco, ao lado da carroça, comendo bananas para aliviar um tédio que, logo se saberá, decorre da espera do final de mais uma das apresentações do tio. Seis bananas são comidas, de um modo que só uma criança comeria, para deleite da platéia que, entre gargalhadas, reconhece ali aspectos do pirralhinho que qualquer um foi um dia. Uma gravação de aplausos efusivos marca a chegada do tio, acenando e sorrindo para as coxias como se acabasse de sair de um picadeiro onde era ovacionado, contrasta com a maneira como ele se relaciona com o sobrinho, revelando de imediato a personalidade austera e sofrida que se esconde por trás do nariz de palhaço: são gestos secos, solicitações imperativas, olhares inquisidores. Porém esse tio nunca é mesmo o que se espera dele, humano que é, poço de sentimentos, de memórias de dores e alegrias. Interpretado pelo grande ator baiano Lúcio Tranchesi, o tio mostra sua complexa personalidade através de gestos mínimos – ora de agressividade, ora de doçura – que irrompem quando menos esperamos, destacando-se no contraste com a armadura emocional que aquele personagem parece carregar o tempo todo.

A primeira meia hora da peça avança sem pressa. O ritmo lento pontua com pertinência um cotidiano de poucas novidades e da rotina entre as apresentações, o que mais tarde se entenderá como necessário para estabelecer que aquela história, apesar de fundar-se no riso e na graça circense, quer também fazer uma conexão com a vida real, especialmente o que há de real na vida por trás dos panos dos circos. É nesse espaço-tempo de certa morosidade que se dá o esforço do sobrinho para aprender os detalhes da tal rotina. Claro que, numa peça com palhaços, essas tentativas do sobrinho sempre acabam em trapalhadas gozadíssimas. São cenas construídas a partir de ações pequenas e comuns, como arrumar objetos numa caixa, limpar o chão, amarrar o cadarço de um sapato ou mesmo as investidas desastradas para imitar o tio.

A admiração que o sobrinho sente pelo tio e os esforços que ele faz para ser reconhecido não passam despercebidos pelo experiente artista, que aos poucos começa a ensinar para o menino aquilo que sabe da arte de ser palhaço. O descortinar dos segredos desse mundo marca também um novo ritmo no andamento do espetáculo, como se a própria vida do sobrinho se vitalizasse ao ganhar um significado. Sim, pois agora sentia-se credenciado para se tornar alguém na vida, alguém tão bacana quanto seu tio.

O aprendizado obviamente não é fácil e é igualmente óbvio que tais cenas são muito engraçadas; desde a primeira delas, onde o sobrinho põe os patins do tio às escondidas e, mesmo sem saber como andar naquilo, tem que fugir para não apanhar. Malabares, pernas-de-pau, acrobacia, gags, todo esse aprendizado é mostrado em cenas curtas, sintéticas, onde se pode perceber que tudo aquilo exige esforço, empenho, disciplina e prática permanente. Vemos o sobrinho entrar em contato com cada novo desafio, a princípio desajeitado, mas sempre tentando vencer a descoordenação, estimulado pelas indicações enérgicas do tio. Vemos o que era confusão e embaraço pouco a pouco ganhar segurança, forma e, enfim, beleza e personalidade. É notável que, mesmo nesse tour-de-force pelas inúmeras formas de expressão disponíveis ao palhaço, em nenhum instante a peça caia no lugar-comum. Mesmo um número tão conhecido como o do espelho (em que dois palhaços ficam de frente para o outro agindo como se estivessem diante de suas próprias imagens num espelho) é mostrado com sabor de coisa nova, denotando uma recusa dos realizadores de simplesmente copiar o que tantos já fizeram e fazem.

As cenas do aprendizado do sobrinho também evidenciam uma outra grande qualidade de “O sapato do meu tio” que é o modo como é tratado o tempo-espaço. Se no trecho inicial da peça sentia-se claramente o dilatar-se do passar dos dias, na continuidade da peça, enquanto o sobrinho ia conquistando destreza no contato com cada técnica, era possível perceber que os anos se passavam diante dos nossos olhos, na fluidez de uma cena contínua, sem a necessidade de qualquer recurso técnico de cena, como mudanças de luz ou cenário.

Embora a peça frequentemente drible a expectativa da platéia quanto ao que irá acontecer em seguida, isso não acontece com o trecho final da história, talvez até porque certas histórias tendem mesmo a caminhar para certos finais. Assim, como era de se esperar, com o passar dos anos vem a decadência do tio e a ascensão do sobrinho. O marco dessa transição é, talvez, o ponto alto da peça, quando os dois, juntos, “se apresentam” para os espectadores, numa cena aplaudida com entusiasmo e sem necessidade de qualquer gravação.

Impossível deixar de falar do extraordinário trabalho corporal dos dois atores. Por exemplo, se eu já não tivesse assistido a esse espetáculo outras vezes, juraria que Alexandre Casali improvisava em cena, tamanha a naturalidade com que tudo desaba ao redor dele, nas tentativas do sobrinho de aprender a “domar” seu próprio corpo na relação com sua realidade. Todos os gestos e marcas não são apenas exatos, precisos, mas imbuem-se de altas doses de naturalidade e alma, o que é essencial para deixar tão nítida essa impressão de se estar diante de um instante vivo, novo, cheio de um frescor que só as coisas vivas tem. Essa mesma referência pode ser observada numa configuração oposta, na maneira como se delineia a partitura corporal de Lúcio Tranchesi. Seu personagem, ao contrário do sobrinho, usa de gestos seguros visivelmente bem desenhados e marcados. Tais gestos também revelam, mesmo nos momentos do cotidiano dele, a influência de uma codificação elegante típica de uma estética da cena circense. Essa segurança rigorosa no gestual do personagem é justamente o que define aquilo que chamei de armadura emocional, pois há momentos – poucos e vívidos – em que o tio se desmonta e deixa entrever um pouquinho do que habita nas profundezas de seu coração. Nesses momentos, habilmente vividos por Tranchesi, podemos supor que é aquela armadura que alimenta o personagem do tio, que o protege, que fez ele se sentir importante e vivo pela sua vida afora.

E até aqui, só elogios. Nada contra, mas, de fato, houve coisas que me incomodaram. Bom, não gostei da projeção de vídeo. Utilizada apenas em três rápidos momentos, serviu apenas para enfatizar o que já era óbvio, pois mostra cenas do sobrinho puxando a carroça do tio em estradas reais, ladeadas por vegetação, e isso durante uma ação que já está sendo vista no palco. Não tenho nada contra se usar vídeo na cena, mas acho que, aqui, ficou estranho. Considerando o modo como a peça se configura como uma verdadeira ode à teatralidade e suas convenções, não havia ali, a meu ver, qualquer espaço – ou sentido – para uma projeção de vídeo.

Também me incomodam na encenação alguns poucos momentos em que nada acontece no palco – instantes em que os atores precisam preparar algo para a próxima cena. Tudo bem que, depois que a cena é retomada, a platéia até se esquece do “buraco”, mas isso acaba sendo uma manchinha no brilho de um trabalho tão bem cuidado e que consegue resolver situações bem mais complexas que um simples vazio na cena.

Quanto aos demais elementos da cena e seu uso, eles são tão adequados e primorosos quanto tudo o mais. A carroça, a primeira vista comum e sem novidades, parece um simples apoio onde se amontoam trapos e tralhas de modo supostamente aleatório. Logo descobrimos que ela é um terceiro personagem em cena. Tudo o que está naquele veículo tem seu momento de utilização e a relação – quase que, digamos assim, coreográfica – dos atores com a carroça e tudo o que ela contém é, em si, um espetáculo a parte.

A iluminação é correta e tem momentos inspirados, como quando o palco se transforma no picadeiro do circo onde os dois personagens se apresentam para nós da platéia. Tudo muito delicado e com impacto que se integra à ação, sem se sobrepor à ela.

Enfim, o que seria a história de dois palhaços acaba resistindo na memória como bem mais que isso. Como acontece com um teatro que consegue atingir seus objetivos, “O sapato do meu tio” transforma a história de dois artistas literalmente anônimos em histórias nas quais qualquer um pode reconhecer. Emerge dali uma trama delicada e rica cujas camadas falam de opressão e libertação, de afeto e indiferença, de aprendizado e esperança, de solidão em público, de pais e filhos, de amigos, de gente em busca de sobrevivência e dignidade. Este espetáculo é, numa leitura mais direta, uma fábula sobre as agruras dos artistas da cena e, talvez por ser contada com tanta pertinência, consegue universalizar a vida como sendo o palco que realmente é.

* É Dramaturgo, Roteirista, Videasta e Mestre em Teatro pela UFBA.

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