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O exílio forçado de uma família, provocado pelas mudanças climáticas, é o eixo temático do espetáculo Saudade em terras d'água (apresentado em 03/05 dentro da excelente programação do Festival Palco Giratório - Recife) do grupo francês Compagnie Dos a Deux. Vemos em cena o gesto desses seres diante deste novo mundo sem água.
Essa difícil saga familiar foi elaborada a partir das ações corporais do atores. Um texto cênico urdido através do jogo físico do elenco. A escrita cênica dialoga com as leis físicas que determinam o equilíbrio, o desequilíbrio, a oposição, a alternância, a compensação, a ação e a reação desta família.
Os quatro personagens (a mãe, o filho, a esposa e a criança) são caracterizados pelos seus impulsos corporais, seu poder de gesto. Temos em cena uma mãe que impõe sua presença, que cuida de todos, que sofre diante da perda do seu lugar. O filho está preso aos desejos dessa mãe. A esposa luta por seu espaço nesta família. A criança é a esperança que une a família ao mundo.
A partir desses elementos vemos a trajetória migratória desses seres diante dos mundos diversos. Esse texto cênico é uma epopéia sobre a necessidade de luta. Um gesto que nos defina diante dos outros. Ser água diante de um mundo seco.
A dramaturgia espetacular é cuidadosamente estabelecida na primeira parte do espetáculo, quando a família está em sua casa dentro de seu infinito mar azul. Nesse momento, percebemos claramente as íntimas relações gestuais entre os integrantes deste núcleo familiar. É quando vemos com clareza os gestos fortes e diretos da mãe; a leveza e a trajetória indireta da esposa; e a composição direta e leve do filho.
Na segunda parte do espetáculo, quando o mar seca e a família se vê obrigada a sair em busca de um novo mundo, infelizmente o espetáculo se torna repetitivo e sem um eixo de ação claro. E o resultado são gestos redundantes que não acrescentam nada aos impulsos cênicos das personagens.
A partir do nascimento da criança – num terceiro e último momento da peça – o espetáculo caminha entre o excelente equilíbrio dos impulsos e gestos claros, e o desequilíbrio de uma cena profundamente repetitiva.
O ponto alto da encenação de André Curti e Arthur Ribeiro é a bela cenografia. Vemos em Saudade um espaço-gesto que se transforma, criando imagens as mais inusitadas. Saímos de uma casa perdida numa imensidão do mar até uma favela inóspita numa grande cidade, e tudo construído com os mesmos recursos cenográficos. A dramaturgia do espaço é preponderante, chegando a ofuscar o trabalho dos atores em algumas cenas.
Porém, na cena em que a mãe vê o desenho do rosto do filho numa tela onde estão as imagens das pessoas desaparecidas na guerra deste novo mundo seco, vemos uma solução muito óbvia – o desenho dos rostos utilizando o grafismo – bem distante do apuro visual presente nas outras cenas do espetáculo.
A iluminação de Frederic Ansquer e os figurinos de Maria Adélia conseguem dar clareza e precisão em suas intenções visuais, mas não possuem a mesma força dramática da cenografia. A luz dialoga com os impulsos internos dessa família desde um azul solitário marítimo até a secura de um branco opressor. Enquanto os figurinos caracterizam a atuação das personagens por seus pesos: na roupa pesada da mãe que carrega a tradição e na leveza da esposa que busca se impor nesse mundo. O figurino do filho não se apresenta com força na construção da imagem do espetáculo.
A sonoplastia não acompanha o apuro poético de Saudade. A trilha de Fernando Mota se resume a sua funcionalidade de destacar ações importantes; é precisa, mas não é poética. Não conseguindo descobrir outras sonoridades marítimas, que não sejam as mais 'clicherizadas'.
O elenco responde de forma irregular às ações das personagens. André Curti é quem melhor se sai como uma mãe imperiosa e lutadora. Sua partitura corporal é rigorosamente definida, mas diversas vezes esta precisão não traduz os anseios corporais da mãe. A atriz Lakko Okino consegue dar beleza a suas ações físicas, infelizmente sem mergulhar no drama da esposa que assume para si a luta por um novo lugar naquele núcleo familiar. Já Arthur Ribeiro está fora do jogo da cena. A personagem do filho interpretada por ele resulta sem força. O fogo da luta presente na arquitetura dramatúrgica do filho não aparece no resultado interpretativo do corpo de Ribeiro. A criança é representada na peça por um boneco, que possibilita aos atores trabalharem com manipulação direta. É uma solução cênica visualmente interessante.
O espetáculo Saudade em terras d'água possui uma excelência em seu rigor visual, mas essa exatidão não possibilita que a cena ganhe, em sua completude, uma força dramática. Em diversos momentos, a cena resulta excessivamente formalista e distante dos dramas das personagens.
Agora é inegável a importância da presença do grupo Compagnie Dos a Deux dentro da programação do Festival Palco Giratório – Recife. Pois seu trabalho é um diferencial para nossa cena local.
*Colaborador do TeatroPE, Arte-educador e encenador.
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