O Ventoforte é puro
sopro lúdico! 
por Rodrigo Dourado*

O panorama do teatro para crianças é, em geral, desolador. Tomado por aventureiros, mercenários e mal-intencionados de toda espécie, o gênero padece de baixíssima qualidade. Confesso meu choque absoluto diante de algumas montagens que assisti no último Janeiro de Grandes Espetáculos, na condição de membro da comissão julgadora:
As quatro chaves

1. Discursos vulgarizados sobre bom-mocismo e perdão;

2. excesso de didatismo;

3. saudosismo agudo: “o tempo de vocês é ruim, bom era o tempo dos seus pais!”;

4. a criança tratada como ser genérico, sem identidade e sem profundidade: “criança é aquela que brinca!”;

5. pirofagia nos moldes da Disney – espetáculos que enchem os olhos, mas não a alma;

6. atuações sofríveis e sem pesquisa – chego a ouvir a cantilena;

7. e muito, muito biscoito e pipoca.  

Sinto-me aqui na obrigação de pontuar duas experiências pernambucanas que, na direção contrária do que foi descrito anteriormente, se aproximam muito do espetáculo As 4 chaves, apresentado pelo balzaquiano grupo Ventoforte nos últimos dias 07 e 08, dentro da Programação do Festival Palco Giratório. São elas: Poemas Esparadrápicos – o musical; e Rififi no picadeiro. Mas em que, precisamente, esses espetáculos se aproximam?

  1. Todos abandonam a idéia de que o gênero tem por objetivo ensinar alguma coisa à criança. A experiência teatral não é encarada como experiência meramente didática, mas sim de encontro entre seres humanos, de comunhão, de troca. E seres humanos, muita vezes, se encontram somente para fazer chiste da vida e sorrir!
  2. Poemas esparadrápicos e As 4 chaves não apresentam uma estrutura narrativa clássica, mas investem em pequenas situações e quadros extremamente lúdicos, com personagens de grande teatralidade;
  3. As personagens não se dividem entre bons e maus. Há momentos de hesitação, indeterminações, inversões de função. As personagens são apresentadas como seres humanos em toda sua complexidade, plenos de desejos, de defeitos e falíveis;
  4. Nada de bichinhos, graças a Deus! É no universo dos homens que os conflitos acontecem!
  5. A criança não é encarada como um projeto de adulto, como um ser humano incompleto, inferior, menor, mas é partícipe da ação. Tem seus sentidos realmente estimulados – para além do mero “dedodurismo”;
  6. Nada de pirofagia. É comovente e brilhante a teatralidade absoluta que esses espetáculos extraem dos elementos mais simples, criando momentos de puro lirismo;
  7. O registro das atuações se afasta inteiramente do “idiostismo” dos apresentadores de programas de televisão para crianças; da superficialidade das atuações viciadas do teatro infantil: cheias de muletas e maneirismos;
  8. Figuras clownescas, contadores de histórias, personagens que dialogam com o universo da animação, do cinema são os protagonistas desses espetáculos;
  9. Mais importante: os adultos não fingem ser crianças! Afinal, não é preciso ser criança para brincar!
  10. Nada de playback! A música é personagem. Resgatando canções, instrumentos, melodias da tradição popular, esses espetáculos constroem uma dramaturgia musical que é parceira da cena. Cria atmosferas, suspende o tempo

Eu arriscaria dizer, de forma mesmo muito irresponsável, que o Ventoforte é o Teatro Oficina para Crianças. Uma experiência libertária, lúdica, sensorial, celebratória, festiva, carnavalesca, humana! Foi incrível assistir Às 4 chaves e ver como o espetáculo abraça a platéia e como, ao final, as fronteiras que separam atores e público já não mais existiam. É o TEATRO na sua boa e velha forma: um ritual, cujo pretexto é que possamos transcender nossos limites. Ritual esse que o Ventoforte oficia com enorme competência. 

*Editor-geral do TeatroPE, Jornalista, Professor de Teatro, Mestrando em Comunicação pela UFPE. 

 


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